terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Especuladores

Os Malvados especuladores - Ricardo Reis - dinheirovivo - 9jan16

«Quando temos de dar sentido ao nosso sofrimento, poucas explicações têm tanto apelo como as histórias dos bons e dos maus. 


Para cada infortúnio há um vilão que beneficiou com as nossas perdas e se ri às nossas custas. Nos debates sobre economia e bancos, os vilões tem um nome especial: especuladores. Eles são os primeiros a ser culpados quando o Estado perde dinheiro e exige-se que lhes sejam cobradas as perdas dos contribuintes. As aventuras do sistema financeiro em Portugal mostram, no entanto, que estes malvados especuladores são mais difíceis de achar na prática do que na retórica dos discursos. No caso do BPP, um banco que funcionava como um fundo de investimento, quem investiu centenas de milhares de euros, sobretudo em fundos de ações, perdeu o seu dinheiro. Pensava eu que tendo em conta as quantias e o tipo de investimento seriam estes os especuladores dos artigos de jornal inflamados. Enganei- me. As notícias descreviam pessoas que perderam as poupanças de toda a vida e doentes com depressões e tentativas de suicídio. Seguiu-se o BES e a perda dos depósitos nas agências do Luxemburgo ou no Dubai. Identifiquei nestas pessoas com somas avultadas em offshores os especuladores de que ouvia falar no Prós & Contras. Mas voltei a enganar-me. Nos media li antes a história de pessoas como o treinador Carlos Queiroz, que garantia ter assinado uns papéis sem saber o que lá estava escrito, comportamento que não me parece ser o de um especulador. Há umas semanas veio o Banif, e a decisão do governo de salvar os grandes depósitos, embora a lei da garantia dos depósitos só cubra os depósitos até cem mil euros. Foram cerca de 1,4 mil milhões de euros que saíram do bolso dos contribuintes para o destes depositantes. Quem tem mais de cem mil euros no Banif, depois de dois anos de notícias sobre o estado do banco, e sabendo que não estavam cobertos, só pode ser o tal especulador de que se fala nos comícios do PCP e do BE. Nem pensar. Afinal, eram sobretudo pobres emigrantes e gestores públicos a investir na tesouraria dos seus órgãos do governo regional. Mesmo a fechar o ano, veio a transferência das dívidas seniores do Novo Banco para o BES. Ficaram a perder o Pimco e a BlackRock, que gerem cerca de seis biliões de dólares, 25 vezes mais do que o PIB anual português. A quem melhor assentaria o chapéu de horrível capitalista? Parece que a eles não, porque nos jornais li que estes são os investidores habituais na nossa dívida pública, parceiros com quem contamos nas alturas difíceis. Mais, eles representam fundos de pensões que financiam há anos a nossa endividada economia, mas juram nunca mais confiar na palavra de um português. Os especuladores são unicórnios ou gambozinos: só existem nas histórias. A moral desta experiência não é que não existem vilões: A moral é que na cultura atual de bail-out, desde que se façam passar por coitadinhos, todos têm esperança de ser salvos das suas perdas financeiras. O contribuinte que pague. - »

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