O Alvoroço da Economia Actual
sábado, 5 de novembro de 2016
quarta-feira, 2 de novembro de 2016
Qual direita, qual carapuça
Ouvir PSD e CDS lamentarem a falta de investimento público e entrarem no campeonato dos aumentos das pensões é bem a prova de que Portugal está condenado às miseráveis políticas de esquerda
O que nasce torto raramente se endireita. É o caso do sistema político luso pós--25 de Abril. Os militares impuseram regras claras e até levaram personalidades do antigo regime a formar um partido centrista, dito democrata cristão, para impedir a criação de forças políticas de direita.
As vagas tentativas de formar partidos à direita foram de imediato reprimidas e o pós-28 de Setembro ditou o fim dessas frágeis iniciativas. Assim, nestes mais de 40 anos de democracia, Portugal tem partidos de extrema-esquerda e de centro- -esquerda. À direita é um deserto absoluto e só por facilitismo é que se fala numa direita ou centro-direita quando o tema é o PSD ou o CDS.
Só nos períodos de bancarrota, em que o país foi governado de fora, como aconteceu em 1978, 1983 e 2011, é que os governos de esquerda ou centro-esquerda no poder foram obrigados a tomar medidas económicas ou a promoverem reformas estruturais dignas de uma direita moderna, que liberaliza a economia e o mercado de trabalho, promove a verdadeira concorrência e reduz o peso da Estado na economia e na sociedade.
Foi assim com o último governo do PSD e do CDS. Mas em matérias cruciais, como a reforma do Estado e a privatização do setor dos transportes, o governo claudicou, mostrando a sua verdadeira natureza política.
E se algumas dúvidas houvesse sobre a inexistência de uma verdadeira direita em Portugal, basta estar atento ao debate em curso sobre o Orçamento do Estado e às lamentáveis peripécias à volta da Caixa Geral de Depósitos.
A esquerda, a que está no poder e a que está na oposição, discute apaixonadamente a vida de milhões de pensionistas, com as diferentes fações a reclamarem para si aumentos num campeonato eleitoral lamentável a todos os títulos, sem que ninguém ponha ordem na algazarra e diga de uma vez por todas que o rei vai nu. A Segurança Social é insustentável a médio prazo e só uma direita a sério seria capaz de fazer as reformas e tomar as medidas que se impõem para evitar a falência de um sistema sem qualquer futuro para quem entrou no mercado de trabalho há poucos anos e desconta religiosamente para uma futura reforma que, afinal, o Estado não está em condições de garantir.
E se algumas dúvidas houvesse sobre a inexistência de uma verdadeira direita em Portugal, basta estar atento ao debate em curso sobre o Orçamento do Estado e às lamentáveis peripécias à volta da Caixa Geral de Depósitos.
A esquerda, a que está no poder e a que está na oposição, discute apaixonadamente a vida de milhões de pensionistas, com as diferentes fações a reclamarem para si aumentos num campeonato eleitoral lamentável a todos os títulos, sem que ninguém ponha ordem na algazarra e diga de uma vez por todas que o rei vai nu. A Segurança Social é insustentável a médio prazo e só uma direita a sério seria capaz de fazer as reformas e tomar as medidas que se impõem para evitar a falência de um sistema sem qualquer futuro para quem entrou no mercado de trabalho há poucos anos e desconta religiosamente para uma futura reforma que, afinal, o Estado não está em condições de garantir.
A esquerda, a que está no poder e a que está na oposição, anda a discutir apaixonadamente a falta de investimento público e os males que advêm para a economia. Só uma direita a sério seria capaz de dizer a estes esquerdistas que o investimento público é uma ilusão, não cria empregos e não faz crescer a economia. O crescimento económico depende do investimento privado, de um mercado de trabalho flexibilizado e de uma redução da carga fiscal significativa para as empresas e famílias.
A esquerda, a que está no poder e a que está na oposição, anda muito excitada com o volume das cativações impostas pelas Finanças. A que está na oposição chora baba e ranho pelos serviços públicos afetados por essa redução da despesa e a que está no poder atira à cara da outra que no anterior governo as cativações também foram aplicadas para mascarar as contas públicas e reduzir o défice das contas do Estado. Só mesmo uma direita a sério deveria não só aplaudir as cativações como exigir um orçamento de base zero a todos os serviços do Estado para reduzir de forma estrutural a brutal despesa do Estado.
A esquerda, a que está no poder e a que está na oposição, provocou uma autêntica balbúrdia na Caixa Geral de Depósitos, o tal banco público que está praticamente na falência e precisa de uma injeção de capital superior a cinco mil milhões de euros devido aos negócios dolosos das esquerdas que ocupam o poder em Portugal há mais de 40 anos. A esquerda no poder, pressionada pelo BCE e por Bruxelas, aceitou transformar a CGD num banco privado com o Estado como único acionista. A esquerda que está na oposição não quer que a CGD seja um banco privado, exige redução dos vencimentos da administração e vai mesmo propor que os seus membros sejam obrigados a declarar os seus rendimentos ao Tribunal Constitucional. Só mesmo uma direita a sério estaria em condições de defender a privatização da Caixa, evitando que o banco público sirva de balcão privilegiado dos negócios das clientelas das esquerdas que alternadamente ocupam o poder.
É por estas e por outras que este país está e vai continuar a estar na miséria. A esquerda, a que está no poder e a que está na oposição, precisa de um Estado monstruoso cheio de funcionários públicos a quem dá mordomias e prebendas nas vésperas dos atos eleitorais.
A esquerda, a que está no poder e a que está na oposição, precisa de um país pobre, com muitos pobres que votam alternadamente em função das esmolas chorudas que os donos disto tudo prometem com o dinheiro dos poucos contribuintes que são alvo de sucessivos assaltos fiscais há mais de 40 anos.
Num país de esquerda com várias esquerdas, é tempo de acabar com a palavra direita. Direita, em Portugal, só mesmo a da tropa. Por enquanto, claro.
Jornalista
31/10/2016 - Jornal i
António Ribeiro Ferreira
Opiniao
Opiniao
sábado, 9 de abril de 2016
O passado, o futuro ou bater no muro da realidade
José Manuel Fernandes , Observador , 7 de Abril de 2016
«O discurso político da maioria é que há um governo a olhar para o futuro e uma oposição presa ao passado. Como retórica política, até se pode desculpar: não há nada como criar ilusões para disfarçar a realidade. Mais discutível é a sua adopção por boa parte do comentariato. Até porque a principal actividade da actual maioria parlamentar tem sido a de “reverter” todas as (poucas) reformas promovidas pelo anterior executivo. Ora “reverter”, pode ler-se em qualquer dicionário, significa “voltar para o ponto de onde se partiu”, ou seja, voltar para trás, regressar ao passado.
Estamos pois perante uma das mais fantásticas girândolas propagandísticas dos últimos anos: voltar ao passado é olhar para o futuro; querer prosseguir o caminho das reformas é estar preso ao passado. Como Orwell ilustrou de forma genial no seu romance distópico1984, em política o domínio da linguagem e dos termos utilizados é fundamental para limitar os termos do debate público e castrar formas de pensamento diferentes. Ora com esta “novilíngua” orwelliana da nova maioria estamos mesmo perante um caso típico de “duplopensamento”, isto é, estamos a tentar utilizar as palavras de formas totalmente opostas conforme os interesses do momento. Se em 1984 Guerra é Paz e Liberdade é Escravidão, no 2016 da geringonça Passado é Futuro e Reverter não é sinónimo de Recuar, antes de Avançar. A adopção tácita desta “novilíngua” permite mesmo que se diga, como disse o representante do PCP no final do Congresso do PSD, que os sociais-democratas foram derrotados nas eleições de 4 de Outubro, quando esses mesmo sociais-democratas venceram essas eleições e têm o maior grupo parlamentar da Assembleia (elegeram 89 deputados, quase seis vezes mais do que os 15 do PCP).
Eu compreendo que o facto de estarmos a viver uma situação inédita, tornada possível por uma coligação nunca antes constituída, pode criar a ilusão que é essa coligação que, só por si, determina o futuro, tudo o resto pertencendo ao passado. Na verdade trata-se de uma forma de pensar duplamente errada. Primeiro, porque ignora que, em democracia, podem e devem existir diferentes formas de definir o caminho a seguir pelo país, todas elas representando visões concorrentes do que deve ser o futuro. Depois, porque mesmo não existindo um sentido única na História, nem determinismos fatalistas (ao contrário do que pensam os marxistas), pensar o futuro deve ter sempre como base tentar perceber a realidade. Quando essa realidade é mascarada por um qualquer “duplopensamento” à medida das conveniências políticas de ocasião, então caminhamos muito depressa para o desastre.
Vamos então olhar para a realidade e para o que ela nos mostra. Este sábado o Expresso publicou um trabalho onde se mostrava, com base numa recolha de informação pedida ao INE, que há 20 anos que o rendimento dos mais novos está cair por comparação com o dos mais velhos. Considerando o período que vai de 1989 a 2009, o rendimento dos que têm menos de 30 anos caiu 18 pontos percentuais em relação à média nacional; no mesmo período de tempo, o rendimento dos que têm mais de 65 anos subiu 27 pontos percentuais. Pior do que Portugal, no que se refere à queda de rendimento dos mais novos por comparação com a média nacional, só a Itália.
Estes dados não me surpreenderam. Há dois anos editei, com Helena Matos, um livro sobre a forma como Portugal estava e está a comprometer o presente e o futuro dos mais novos – “Este país não é para jovens” –, pelo que ao ler o Expresso só confirmei a percepção de que os que têm menos de 30 anos estão mesmo a ser prejudicados, e que mais prejudicados serão no futuro quando descobrirem que as suas futuras pensões também serão muito mais baixas, ou seja, que “a pobreza ameaça o futuro desta geração”, como disse a esse jornal Fernando Ribeiro Mendes.
O pensamento dominante tende a reagir a este tipo de revelações – que só são realmente revelações para quem anda de olhos voluntariamente vendados – defendendo subidas administrativas de salários (como o salário mínimo) e regimes laborais que contrariem a “precarização”. A verdade porém é que não se pagam salários mais elevados sem que se crie mais riqueza, nem se criam mais empregos sem que as empresas sejam capazes de competir nos mercados abertos do tempo da globalização. É por isso que há muito se fala, em toda a Europa, da necessidade de reformas do mercado de trabalho, reformas que a Alemanha e os países nórdicos já concretizaram no essencial, reformas que são violentamente combatidas na Europa do sul (ainda esta semana a França voltou a conhecer protestos gigantescos contra mudanças nas lei laborais promovidas por um governo que até é socialista).
Ora olhando para os dados do Expresso verificamos que o fosso entre mais novos e mais velhos é maior na Europa do Sul, e que a perda de rendimento dos mais novos é também muito mais acentuada a Sul. Mas quando vemos os números de um país como Alemanha, que levou por diante um conjunto de reformas corajosas na viragem do milénio, encontramos a menor diferença na evolução comparada dos rendimentos: os mais novos só perderam cinco pontos percentuais, tantos quantos ganharam os mais velhos.
As reformas realizadas na Alemanha não permitiram apenas que aquele país voltasse a ser competitivo, ou que tenha hoje uma das mais baixas taxas de desemprego na Europa: também ajudaram a uma maior justiça intergeracional. No entanto, mesmo face a estas evidências, os que andam sempre com a palavra “futuro” na boca são os mesmos que estão a reverter as poucas reformas dos últimos anos que iam no sentido das realizadas na Alemanha.
Mas há mais, e porventura ainda mais perturbador. Apesar de não faltarem estudos (incluindo os realizados pelo actual ministro das Finanças, Mário Centeno) a alertar para o perigo de subidas bruscas no salário mínimo poderem ter consequências negativas na criação de emprego, o anterior Governo descongelou o salário mínimo no final de 2014 e o actual fê-lo dar novo pulo. Teria sido necessário um milagre de aumento de produtividade para esses aumentos não se terem reflectido na evolução do emprego, e a verdade é que isso parece estar mesmo a acontecer.
Com base na minha própria recolha de dados nas estatísticas do INE confirmei aquilo que já se sabia – em Portugal a população empregada diminuiu até ao Verão de 2013, tendo vindo a aumentar desde essa data (e estou a utilizar os dados da população empregada para fugir à controvérsia sobre o número de desempregados e de emigrantes). Aquilo que não sabia, e dados que recolhi me mostraram, é que a criação de emprego a partir desse momento de viragem não se deu sempre ao mesmo ritmo. Utilizando como referência a média móvel da diferença entre criação e destruição de emprego nos últimos 12 meses, uma fórmula que permite evitar o efeito das variações sazonais do emprego, verifica-se que essa média móvel atinge um valor máximo em Setembro e Outubro de 2014 (nos 12 meses anteriores tinham-se criado 6,9 mil empregos por mês), e a partir daí esse indicador começa a cair. Um ano depois, em Outubro de 2015, já descera para 3,5 mil novos empregos por mês.
O que é que aconteceu em Outubro de 2014 que possa justificar esta desaceleração, esse novo ponto de viragem? Há uma hipótese de resposta que salta à vista: foi exactamente em Outubro de 2014 que entrou em vigor o primeiros destes dois aumentos do salário mínimo.
Como tivemos em Janeiro passado novo aumento do salário mínimo, temos de ver o que acontece daqui para a frente, mas devo dizer que os primeiros indicadores não são entusiasmantes. Habitualmente há menos pessoas empregadas nos meses de Janeiro e Fevereiro do que em Novembro e Dezembro, pelo que não vou ficar-me pelo mau resultado revelado pelos últimos números do INE, que nos dizem ter o país perdido 65 mil postos de trabalho entre Novembro de 2015 (quando este Governo entrou em funções) e Fevereiro de 2016. Isso seria demagógico. Fui por isso por outro caminho, comparando o que se passou nestes quatro meses com o que se passou em anos anteriores. Temos assim que o ano passado a média de perda de empregos nestes meses foi de 4,65 mil por mês e, este ano, esse valor saltou para 16,17 mil. Esperemos pelos próximos meses para ver se esta tendência se confirma, ou não, mas a verdade é que todos os últimos indicadores económicos não são positivos.
Apetece-me por isso, voltando a falar de passado e de futuro, citar Steen Jakobsen, economista-chefe do Saxo Bank, ontem entrevistado pelo Observador: “Já ouvi essa história de virar a página da austeridade. Boa sorte. Vejo este governo a falar numa viragem da “página da austeridade” na única altura em que Portugal se tornou competitivo como país. Agora querem recuar. Boa sorte. Vão voltar a cair em recessão. E vão incorrer em mais dívida e vão voltar a precisar de um perdão de dívida. O novo governo parece interessado em anular num ano o que se conseguiu em sete anos.”
É apenas mais um aviso. Sendo que os números que citei parecem reforçar a pertinência do aviso. Com a diferença que esses números são reais. Tão reais como um muro. E nós estamos a ir contra esse muro com o pé no acelerador.»
sexta-feira, 4 de março de 2016
Donald Trump é mesmo um conservador?
Nuno Aguiar | naguiar@negocios.pt | 02 Março 2016, 13:32
«Donald Trump está cada vez mais próximo de garantir a nomeação republicana para a Presidência dos Estados Unidos, mas em muitos pontos o seu programa é pouco conservador e afasta-se da linha central do partido.
«Donald Trump está cada vez mais próximo de garantir a nomeação republicana para a Presidência dos Estados Unidos, mas em muitos pontos o seu programa é pouco conservador e afasta-se da linha central do partido.
"É complicado." Tal como o status das relações no Facebook, a matriz ideológica de Trump pode ser difícil de definir. Há vários motivos para o aparelho republicano não gostar de Trump, mas dois são muito claros: acham que ele não tem hipóteses de vencer a eleição geral de Novembro (o que os deixaria 12 anos afastados da Casa Branca); e consideram que Trump é demasiado liberal em vários temas.
Algumas caracterizações mais superficiais do milionário norte-americano apresentam-no como o mais extremista dos candidatos republicanos, mas essa classificação não corresponde à verdade. Esse epíteto faz mais sentido aplicado a Ted Cruz, o representante da ala Tea Party dos republicanos. Na realidade, tirando a política fiscal e a imigração - onde é provavelmente o candidato com ideias mais agressivas -, Trump não é muito conservador.Algumas das suas ideias são aliás mais à esquerda do que aquilo que defendem os democratas.
Saúde. É um tema central para os republicanos. Um dos principais legados da Presidência Obama será a sua reforma de Saúde, normalmente chamada Obamacare e que os republicanos têm feito de tudo para boicotar. Há 16 anos, Trump defendia um sistema universal de saúde, aquela que é hoje uma das principais bandeiras de Bernie Sanders. "Se não conseguimos tomar conta dos nossos doentes no nosso país, esqueçam, acabou. Quer dizer, isso não serve", admitia numa entrevista a Larry King, em 1999. "Por isso sou bastante liberal no que diz respeito aos cuidados de saúde. Acredito num sistema de saúde universal."
Entretanto, a sua posição aproximou-se mais das ideias republicanas, principalmente no que toca a criticar o Obamacare. Porém, ao mesmo tempo, continua a fazer críticas contundentes às seguradoras privadas e a falar dos benefícios de um sistema gerido pelo Governo. Tem sublinhado que irá substituir Obamacare por outro modelo, sem ter ainda explicado exactamente qual será.
Programas sociais. Outra diferença marcada face ao resto do campo republicano é que Donald Trump não defende cortes nos programas sociais. Considera que os gastos públicos com Segurança Social e o Medicare (sistema de saúde para quem tem mais de 65 anos) fazem parte de "honrar um acordo". "Todos os republicanos querem fazer um grande número na Segurança Social, querem fazê-lo na Medicare, querem fazê-lo na Medicaid […] Eu não vou fazê-lo." Disse que defenderia estes programas das tentativas dos republicanos para os privatizarem
Aborto. Mais um tema em que Trump tem flutuado, mas sempre longe das posições mais conservadoras defendidas por muitos dos seus rivais à nomeação republicana. No livro "The America We Deserve", publicado em 2000, Trump assume-se como "pró-escolha". Em 2011, disse que mudou de opinião "há anos", ao conhecer a história pessoal de um amigo, e que agora era "pró-vida" (contra o aborto). Mais recentemente, em 2015, explicou que essa posição tinha excepções, nomeadamente incesto, violação e casos em que a vida da mãe esteja em risco.
Em relação à Planned Parenthood - uma ONG financiada com dinheiro público e a maior prestadora de serviços de saúde relacionados com natalidade nos EUA (inclundo aborto) - Trump defende que deveria deixar de ser financiada pelo Estado, se continuar a realizar operações de interrupção voluntária da gravidez. "Sinceramente, parece uma fábrica de abortos", acusou. A instituição é das mais atacadas pelos outros candidatos republicanos, mas Trump admite que "fazem coisas boas pelas mulheres".
Casamento entre pessoas do mesmo sexo. Desde a última decisão do Supremo Tribunal de Justiça dos EUA, Trump diz estar resignado em relação ao casamento homossexual – "é a lei". Embora continue a defender que o casamento deve ser entre um homem e uma mulher, considera que esse tema deve ser decidido individualmente por cada estado.
Comércio livre. Neste campo, a diferença face ao Partido Republicano é substancial. Um partido defensor da globalização e da eliminação de restrições ao comércio pode ter como nomeado um candidato que pretende introduzir um imposto de 20% sobre todos os bens importados pelos Estados Unidos (de 45% se as mercadorias forem chinesas...), assim como um imposto de 15% para penalizar empresas que deslocalizem a sua produção. "Vamos obrigar a Apple a construir a porcaria dos seus computadores neste país em vez de noutros", afirmou em Janeiro. Medidas altamente proteccionistas, com o objectivo de proteger os postos de trabalho americanos, e que há muito deixaram de fazer parte do menu de ideias dos principais candidatos à Presidência dos EUA. Curiosamente, Bernie Sanders também é bastante crítico dos acordos de comércio livre, mas não ao ponto de propor tarifas proteccionistas deste género.
Política externa e defesa. É muito difícil de saber onde colocar Trump neste tema. Em algumas declarações, parece querer ser menos interventivo do que os seus rivais, noutras… nem por isso. Defende que deve ser a Rússia a lidar com o Estado Islâmico (embora já tenha dito que tem um plano para o derrotar) e que deve ser a Alemanha a lidar com a Ucrânia. Diz que Putin não tem respeito por Obama, mas que se "daria bem" com ele. Foi dos menos críticos do acordo nuclear com o Irão, mas entretanto fez críticas duras. Ao mesmo tempo, classifica a China como um "inimigo" e acha que os EUA devem lidar com a Coreia do Norte com armas nucleares. Promete expandir a dimensão das forças armadas dos Estados Unidos e quer voltar a aplicar a técnica de interrogação "waterboarding" (simulação de afogamento), classificada como tortura, e até usar "coisas muito piores".
Apoiou a guerra no Iraque antes de ela começar, mas logo no início mudou de posição. Hoje, até já acusou George Bush de ter mentido ao povo norte-americano, dizendo que havia armas de destruição maciça no Iraque, quando sabia que isso não era verdade.
Financiamento de campanhas eleitorais. Donald Trump diz estar aberto a uma reforma do modelo de financiamento que "tire o ‘grande’ dinheiro da política", uma das bandeiras dos democratas. "Alguém dá-lhes dinheiro, não que haja nada de errado, mas psicologicamente quando recorrem a essa pessoa, eles sabem que o vão fazer", afirmou em Janeiro. "Eles estão em dívida. E, já agora, assim eles poderão votar contra [os interesses] do país."
Neste artigo concentramo-nos essencialmente em temas em que Trump se afasta da espinha dorsal conservadora do Partido Republicano. Existem casos em que está perfeitamente alinhado, como no seu plano para a reforma fiscal, que prevê descer a taxa máxima de IRS para 25%, os impostos sobre rendimentos de capital para 20% e dos lucros das empresas para 15%. Estimativas apontam para uma perda de 12 biliões de dólares em receitas ao longo de uma década. O plano teria como consequência o reforço de 1% do rendimento das famílias mais pobres e de 17,5% dos 1% mais ricos.
Por outro lado, há um tema onde até vai mais longe do que o centro do seu partido: imigração. Ideias como construir um muro na fronteira com o México, deportar 11 milhões (!) de imigrantes e proibir muçulmanos de viajar para os EUA são muito agressivas. Além disso, têm o problema adicional de serem muito impopulares no grupo demográfico de maior crescimento nos EUA: os hispânicos. O que nos leva de novo a um dos principais problemas que o Partido Republicano tem com Trump: as dificuldades que poderá ter em ser eleito em Novembro.»
Algumas caracterizações mais superficiais do milionário norte-americano apresentam-no como o mais extremista dos candidatos republicanos, mas essa classificação não corresponde à verdade. Esse epíteto faz mais sentido aplicado a Ted Cruz, o representante da ala Tea Party dos republicanos. Na realidade, tirando a política fiscal e a imigração - onde é provavelmente o candidato com ideias mais agressivas -, Trump não é muito conservador.Algumas das suas ideias são aliás mais à esquerda do que aquilo que defendem os democratas.
Saúde. É um tema central para os republicanos. Um dos principais legados da Presidência Obama será a sua reforma de Saúde, normalmente chamada Obamacare e que os republicanos têm feito de tudo para boicotar. Há 16 anos, Trump defendia um sistema universal de saúde, aquela que é hoje uma das principais bandeiras de Bernie Sanders. "Se não conseguimos tomar conta dos nossos doentes no nosso país, esqueçam, acabou. Quer dizer, isso não serve", admitia numa entrevista a Larry King, em 1999. "Por isso sou bastante liberal no que diz respeito aos cuidados de saúde. Acredito num sistema de saúde universal."
Entretanto, a sua posição aproximou-se mais das ideias republicanas, principalmente no que toca a criticar o Obamacare. Porém, ao mesmo tempo, continua a fazer críticas contundentes às seguradoras privadas e a falar dos benefícios de um sistema gerido pelo Governo. Tem sublinhado que irá substituir Obamacare por outro modelo, sem ter ainda explicado exactamente qual será.
Programas sociais. Outra diferença marcada face ao resto do campo republicano é que Donald Trump não defende cortes nos programas sociais. Considera que os gastos públicos com Segurança Social e o Medicare (sistema de saúde para quem tem mais de 65 anos) fazem parte de "honrar um acordo". "Todos os republicanos querem fazer um grande número na Segurança Social, querem fazê-lo na Medicare, querem fazê-lo na Medicaid […] Eu não vou fazê-lo." Disse que defenderia estes programas das tentativas dos republicanos para os privatizarem
Aborto. Mais um tema em que Trump tem flutuado, mas sempre longe das posições mais conservadoras defendidas por muitos dos seus rivais à nomeação republicana. No livro "The America We Deserve", publicado em 2000, Trump assume-se como "pró-escolha". Em 2011, disse que mudou de opinião "há anos", ao conhecer a história pessoal de um amigo, e que agora era "pró-vida" (contra o aborto). Mais recentemente, em 2015, explicou que essa posição tinha excepções, nomeadamente incesto, violação e casos em que a vida da mãe esteja em risco.
Em relação à Planned Parenthood - uma ONG financiada com dinheiro público e a maior prestadora de serviços de saúde relacionados com natalidade nos EUA (inclundo aborto) - Trump defende que deveria deixar de ser financiada pelo Estado, se continuar a realizar operações de interrupção voluntária da gravidez. "Sinceramente, parece uma fábrica de abortos", acusou. A instituição é das mais atacadas pelos outros candidatos republicanos, mas Trump admite que "fazem coisas boas pelas mulheres".
Casamento entre pessoas do mesmo sexo. Desde a última decisão do Supremo Tribunal de Justiça dos EUA, Trump diz estar resignado em relação ao casamento homossexual – "é a lei". Embora continue a defender que o casamento deve ser entre um homem e uma mulher, considera que esse tema deve ser decidido individualmente por cada estado.
Comércio livre. Neste campo, a diferença face ao Partido Republicano é substancial. Um partido defensor da globalização e da eliminação de restrições ao comércio pode ter como nomeado um candidato que pretende introduzir um imposto de 20% sobre todos os bens importados pelos Estados Unidos (de 45% se as mercadorias forem chinesas...), assim como um imposto de 15% para penalizar empresas que deslocalizem a sua produção. "Vamos obrigar a Apple a construir a porcaria dos seus computadores neste país em vez de noutros", afirmou em Janeiro. Medidas altamente proteccionistas, com o objectivo de proteger os postos de trabalho americanos, e que há muito deixaram de fazer parte do menu de ideias dos principais candidatos à Presidência dos EUA. Curiosamente, Bernie Sanders também é bastante crítico dos acordos de comércio livre, mas não ao ponto de propor tarifas proteccionistas deste género.
Política externa e defesa. É muito difícil de saber onde colocar Trump neste tema. Em algumas declarações, parece querer ser menos interventivo do que os seus rivais, noutras… nem por isso. Defende que deve ser a Rússia a lidar com o Estado Islâmico (embora já tenha dito que tem um plano para o derrotar) e que deve ser a Alemanha a lidar com a Ucrânia. Diz que Putin não tem respeito por Obama, mas que se "daria bem" com ele. Foi dos menos críticos do acordo nuclear com o Irão, mas entretanto fez críticas duras. Ao mesmo tempo, classifica a China como um "inimigo" e acha que os EUA devem lidar com a Coreia do Norte com armas nucleares. Promete expandir a dimensão das forças armadas dos Estados Unidos e quer voltar a aplicar a técnica de interrogação "waterboarding" (simulação de afogamento), classificada como tortura, e até usar "coisas muito piores".
Apoiou a guerra no Iraque antes de ela começar, mas logo no início mudou de posição. Hoje, até já acusou George Bush de ter mentido ao povo norte-americano, dizendo que havia armas de destruição maciça no Iraque, quando sabia que isso não era verdade.
Financiamento de campanhas eleitorais. Donald Trump diz estar aberto a uma reforma do modelo de financiamento que "tire o ‘grande’ dinheiro da política", uma das bandeiras dos democratas. "Alguém dá-lhes dinheiro, não que haja nada de errado, mas psicologicamente quando recorrem a essa pessoa, eles sabem que o vão fazer", afirmou em Janeiro. "Eles estão em dívida. E, já agora, assim eles poderão votar contra [os interesses] do país."
Neste artigo concentramo-nos essencialmente em temas em que Trump se afasta da espinha dorsal conservadora do Partido Republicano. Existem casos em que está perfeitamente alinhado, como no seu plano para a reforma fiscal, que prevê descer a taxa máxima de IRS para 25%, os impostos sobre rendimentos de capital para 20% e dos lucros das empresas para 15%. Estimativas apontam para uma perda de 12 biliões de dólares em receitas ao longo de uma década. O plano teria como consequência o reforço de 1% do rendimento das famílias mais pobres e de 17,5% dos 1% mais ricos.
Por outro lado, há um tema onde até vai mais longe do que o centro do seu partido: imigração. Ideias como construir um muro na fronteira com o México, deportar 11 milhões (!) de imigrantes e proibir muçulmanos de viajar para os EUA são muito agressivas. Além disso, têm o problema adicional de serem muito impopulares no grupo demográfico de maior crescimento nos EUA: os hispânicos. O que nos leva de novo a um dos principais problemas que o Partido Republicano tem com Trump: as dificuldades que poderá ter em ser eleito em Novembro.»
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Fundos soberanos retiram dinheiro dos fundos a ritmo recorde em 2015
Patrícia Abreu | pabreu@negocios.pt | 22 Fevereiro 2016, 15:28
«A quebra das receitas devido aos baixos preços do petróleo está a motivar uma onda de desinvestimento por parte dos fundos soberanos. Em 2015 registaram um volume recorde de resgates das gestoras.
«A quebra das receitas devido aos baixos preços do petróleo está a motivar uma onda de desinvestimento por parte dos fundos soberanos. Em 2015 registaram um volume recorde de resgates das gestoras.
Os fundos soberanos retiraram dinheiro das suas aplicações em gestoras de activos a um ritmo recorde em 2015. E os resgates podem continuar este ano, com os países produtores de petróleo a assistirem a uma quebra das suas receitas devido às baixas cotações do petróleo.
Estes fundos públicos, que gerem as receitas de países produtores de matérias-primas, retiraram 46,5 mil milhões de dólares das gestoras de activos em 2015, um valor superior ao registado durante a crise financeiro, avança o Financial Times. Estas saídas de investimento decorrem num momento em que estes países procuram dinamizar as suas economias.
De acordo com a mesma notícia, estes resgates tiveram um impacto negativo na rentabilidade de entidades como a BlackRock, a Aberdeen, a State Street ou a Franklin Templeton.
Menos receitas, maiores resgates
E os resgates não deverão ficar por aqui. A agência de notação financeira Moody’s prevê que os desinvestimentos por parte dos fundos soberanos aumentem, pelo menos, 25% este ano, devido à quebra das cotações do petróleo.
"Os fundos soberanos dependentes do petróleo deverão aumentar os resgates das gestoras de activos", uma evolução que deverá ter um efeito negativo na indústria de gestão de activos, adiantou a agência.
Quatro dos maiores fundos detidos por países estão sediados em países produtores de petróleo. A Noruega, que gere o maior fundo do mundo, poderá retirar 8,4 mil milhões de dólares do fundo este ano, avisou o governador do banco central norueguês na última semana
Os fundos soberanos são responsáveis pela gestão de sete biliões de dólares.»
Estes fundos públicos, que gerem as receitas de países produtores de matérias-primas, retiraram 46,5 mil milhões de dólares das gestoras de activos em 2015, um valor superior ao registado durante a crise financeiro, avança o Financial Times. Estas saídas de investimento decorrem num momento em que estes países procuram dinamizar as suas economias.
De acordo com a mesma notícia, estes resgates tiveram um impacto negativo na rentabilidade de entidades como a BlackRock, a Aberdeen, a State Street ou a Franklin Templeton.
Menos receitas, maiores resgates
E os resgates não deverão ficar por aqui. A agência de notação financeira Moody’s prevê que os desinvestimentos por parte dos fundos soberanos aumentem, pelo menos, 25% este ano, devido à quebra das cotações do petróleo.
"Os fundos soberanos dependentes do petróleo deverão aumentar os resgates das gestoras de activos", uma evolução que deverá ter um efeito negativo na indústria de gestão de activos, adiantou a agência.
Quatro dos maiores fundos detidos por países estão sediados em países produtores de petróleo. A Noruega, que gere o maior fundo do mundo, poderá retirar 8,4 mil milhões de dólares do fundo este ano, avisou o governador do banco central norueguês na última semana
Os fundos soberanos são responsáveis pela gestão de sete biliões de dólares.»
Como a China quer ser o “patrão” da economia global
André Veríssimo | averissimo@negocios.pt | 22 Fevereiro 2016, 17:17
«Serviços são a aposta para assegurar crescimento anual de 6,5% até 2020. Conselheiro económico do Governo chinês esteve em Lisboa a explicar o plano quinquenal de Pequim.
«Serviços são a aposta para assegurar crescimento anual de 6,5% até 2020. Conselheiro económico do Governo chinês esteve em Lisboa a explicar o plano quinquenal de Pequim.
Chi Fulin, presidente do China Institute for Reform and Development, esteve segunda-feira em Lisboa para a inauguração do ciclo de Grandes Conferências sobre a China. O economista, conselheiro do Governo de Pequim, explicou o plano com que o país pretende assegurar um crescimento de 6,5% nos próximos cinco anos.
Serviços, serviços, serviços. Fazer do sector terciário o motor da economia é a prioridade do 13º plano quinquenal desenhado pelo Comité Central chinês, que compreende os anos de 2016 a 2020.
No final de 2001 o sector dos serviços pesava 41,3% do PIB. No ano passado já valia metade da economia (50,5%). O objectivo é chegar aos 58% até 2020, através de um crescimento anual de 8%. Este é um passo essencial para chegar ao novo "normal" de um crescimento da economia de 6,5% ao ano nos próximos cinco anos. No fundo ser a âncora para manter o país a crescer a um ritmo inferior aos últimos anos, mas ainda assim robusto.
A sala do Centro Cultural de Belém, quase cheia, e onde se destacavam responsáveis de algumas empresas portuguesas com capitais chineses – casos de Nuno Alves, administrador financeiro da EDP ou Rodrigo Costa, presidente executivo da REN – ouviu Chi Fulin explicar que o próximo plano quinquenal "pretende marcar um ponto de viragem histórico para a economia chinesa". Na cerimónia participaram também a secretária-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Ana Martinho, e o embaixador da China em Portugal, Cai Run.
Serviços, serviços, serviços. Fazer do sector terciário o motor da economia é a prioridade do 13º plano quinquenal desenhado pelo Comité Central chinês, que compreende os anos de 2016 a 2020.
No final de 2001 o sector dos serviços pesava 41,3% do PIB. No ano passado já valia metade da economia (50,5%). O objectivo é chegar aos 58% até 2020, através de um crescimento anual de 8%. Este é um passo essencial para chegar ao novo "normal" de um crescimento da economia de 6,5% ao ano nos próximos cinco anos. No fundo ser a âncora para manter o país a crescer a um ritmo inferior aos últimos anos, mas ainda assim robusto.
A sala do Centro Cultural de Belém, quase cheia, e onde se destacavam responsáveis de algumas empresas portuguesas com capitais chineses – casos de Nuno Alves, administrador financeiro da EDP ou Rodrigo Costa, presidente executivo da REN – ouviu Chi Fulin explicar que o próximo plano quinquenal "pretende marcar um ponto de viragem histórico para a economia chinesa". Na cerimónia participaram também a secretária-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Ana Martinho, e o embaixador da China em Portugal, Cai Run.
Aumentar a população urbana
Uma das pedras angulares da estratégia é o aumento da população urbana, que consome mais serviços, como educação, saúde e lazer. O rendimento médio per capita nas cidades é três vezes superior ao das zonas rurais na China.
No final do ano passado, 56,1% dos chineses vivia em cidades. O objectivo para 2020 é chegar aos 60%, um crescimento de 1,2% ao ano. Para isso, o Governo pretende implementar um registo unificado da população em todo o país, e resolver o problema do acesso à segurança social e à saúde dos migrantes. "Toda a população urbana permanente deverá estar coberta pelo serviço público básico até 2020", afirma o economista.
Esta aposta passa também por mais investimento público. Em cima da mesa está a impressionante soma de 42 biliões de yuans até 2020 (5,84 biliões de euros), para promover a construção urbana e rural e construir um sistema de comboios rápidos a ligar as cidades.
O aumento do consumo interno é outra trave mestra do plano. "A China está a passar de uma economia de consumo de subsistência para um consumo desenvolvido", garantiu o presidente do China Institute for Reform and Development. E deu como exemplo o facto de seis milhões de chineses terem viajado para o estrangeiro durante as férias do Novo Ano chinês, contra dois milhões no ano anterior. E deixou o recado: "O turismo português deve estar atento a este potencial".
Assegurar 25% do crescimento global
Chi Fulin elencou algumas das reformas que a China terá de empreender nos próximos anos. Elas passam por uma maior abertura do sector dos serviços à iniciativa privada (que é de 50%, contra 80% na indústria), por lidar com o excesso de capacidade instalada na indústria (sobre a qual não se alongou), por adoptar um sistema nacional de registo de residência e por uma reforma do sistema de supervisão dos mercados financeiros.
Sobre este último ponto, o conselheiro do Governo chinês disse acreditar que a reforma permitirá "melhorar o mercado accionista, que não reflecte a situação da economia". E salientou que "é preciso acelerar" esta reforma.
"Com as reformas nestas quatro áreas a China pode ter um grande potencial de crescimento. Crescer a 6,5% nestas condições é possível. A China tem contribuído com 25% para o crescimento global e nos próximos anos este peso vai manter-se estável", acredita Chi Fulin.
Se a China conseguir levar a cabo as reformas estruturais e alcançar os seus objectivos de desenvolvimento, poderá ser o "novo patrão da economia global", garante.
Por abordar ficaram algumas das fragilidades que são apontadas à economia chinesa, como o elevado endividamento da economia, superior a 250% do PIB, o aumento do crédito malparado ou o sector financeiro sombra.»
Uma das pedras angulares da estratégia é o aumento da população urbana, que consome mais serviços, como educação, saúde e lazer. O rendimento médio per capita nas cidades é três vezes superior ao das zonas rurais na China.
No final do ano passado, 56,1% dos chineses vivia em cidades. O objectivo para 2020 é chegar aos 60%, um crescimento de 1,2% ao ano. Para isso, o Governo pretende implementar um registo unificado da população em todo o país, e resolver o problema do acesso à segurança social e à saúde dos migrantes. "Toda a população urbana permanente deverá estar coberta pelo serviço público básico até 2020", afirma o economista.
Esta aposta passa também por mais investimento público. Em cima da mesa está a impressionante soma de 42 biliões de yuans até 2020 (5,84 biliões de euros), para promover a construção urbana e rural e construir um sistema de comboios rápidos a ligar as cidades.
O aumento do consumo interno é outra trave mestra do plano. "A China está a passar de uma economia de consumo de subsistência para um consumo desenvolvido", garantiu o presidente do China Institute for Reform and Development. E deu como exemplo o facto de seis milhões de chineses terem viajado para o estrangeiro durante as férias do Novo Ano chinês, contra dois milhões no ano anterior. E deixou o recado: "O turismo português deve estar atento a este potencial".
Assegurar 25% do crescimento global
Chi Fulin elencou algumas das reformas que a China terá de empreender nos próximos anos. Elas passam por uma maior abertura do sector dos serviços à iniciativa privada (que é de 50%, contra 80% na indústria), por lidar com o excesso de capacidade instalada na indústria (sobre a qual não se alongou), por adoptar um sistema nacional de registo de residência e por uma reforma do sistema de supervisão dos mercados financeiros.
Sobre este último ponto, o conselheiro do Governo chinês disse acreditar que a reforma permitirá "melhorar o mercado accionista, que não reflecte a situação da economia". E salientou que "é preciso acelerar" esta reforma.
"Com as reformas nestas quatro áreas a China pode ter um grande potencial de crescimento. Crescer a 6,5% nestas condições é possível. A China tem contribuído com 25% para o crescimento global e nos próximos anos este peso vai manter-se estável", acredita Chi Fulin.
Se a China conseguir levar a cabo as reformas estruturais e alcançar os seus objectivos de desenvolvimento, poderá ser o "novo patrão da economia global", garante.
Por abordar ficaram algumas das fragilidades que são apontadas à economia chinesa, como o elevado endividamento da economia, superior a 250% do PIB, o aumento do crédito malparado ou o sector financeiro sombra.»
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
É mesmo, Schäuble?
Não concordando , de um modo geral , com a perspectiva do BE sobre as opções económicas e políticas para Portugal, não deixo de reconhecer razão à autora do texto que a seguir transcrevo:
«Verão de 2007. Portugal estava a banhos e descansava sobre um crescimento económico de quase 2,5%, a que se juntava o défice abaixo das exigências de Bruxelas e uma dívida de 68% do PIB.
Do lado de lá do mar, o sentimento era outro. O Lehman Brothers mostrava os primeiros sinais de instabilidade. Ainda assim, ninguém fez grande caso, até o banco apresentar perdas de 3900 milhões, deixando os mercados em estado de sítio. O resto da história já sabemos. O fim da bolha do imobiliário norte-americana deixou o sistema europeu em apuros, secou o financiamento à atividade económica e obrigou a gigantescos resgates com dinheiro dos contribuintes. As economias periféricas, mais frágeis, foram as primeiras a cair, assim que a loucura dos especuladores chegou às dívidas públicas. Sob a pressão das agências de rating, o financiamento dos estados ficou insuportavelmente caro, precisamente no momento em que era mais necessário. E, tudo isto, sob o olhar parado e indiferente do todo-poderoso BCE.
Passaram oito anos. Com desemprego, pobreza e recessão, os países periféricos pagaram o facto de serem a economia errada, no momento errado, no sítio errado. Promessas foram feitas: os mercados seriam controlados. Mas, desde então, o BCE injetou milhões de milhões de euros num sistema financeiro que continua demasiado endividado, forrado de ativos tóxicos ou desvalorizados pela crise prolongada na Europa. Crise europeia que, diga-se, o desempenho das economias emergentes já não consegue mascarar.
Eis agora que o maior banco alemão, o Deutsche Bank, aparece a anunciar perdas de 6000 milhões de euros, sabendo-se que detém derivados no valor de 65 triliões, umas vinte vezes o PIB alemão. E que foi condenado a pesadas multas por manipulação de mercado.
Perante isto, tudo isto e mais a crise dos refugiados, o perigo da extrema-direita e a eventual saída do Reino Unido da União Europeia, o ministro das finanças Alemão, Wolfgang Schäuble, não encontrou melhor explicação para o "nervosismo" dos mercados do que o Orçamento do Estado português, o tal que se atreveu a fazer valer, ainda que timidamente, um pouco de autodeterminação.
Isto já só não espanta quem tiver deixado de ver para além da pequena gaiola onde nos enfiaram com a história do "portem-se bem, a culpa é toda vossa, viveram acima das vossas possibilidades". Uma Europa lamentável e, acima de tudo, muito triste.»
Mariana Mortágua, 16Fev2016- JN
«Verão de 2007. Portugal estava a banhos e descansava sobre um crescimento económico de quase 2,5%, a que se juntava o défice abaixo das exigências de Bruxelas e uma dívida de 68% do PIB.
Do lado de lá do mar, o sentimento era outro. O Lehman Brothers mostrava os primeiros sinais de instabilidade. Ainda assim, ninguém fez grande caso, até o banco apresentar perdas de 3900 milhões, deixando os mercados em estado de sítio. O resto da história já sabemos. O fim da bolha do imobiliário norte-americana deixou o sistema europeu em apuros, secou o financiamento à atividade económica e obrigou a gigantescos resgates com dinheiro dos contribuintes. As economias periféricas, mais frágeis, foram as primeiras a cair, assim que a loucura dos especuladores chegou às dívidas públicas. Sob a pressão das agências de rating, o financiamento dos estados ficou insuportavelmente caro, precisamente no momento em que era mais necessário. E, tudo isto, sob o olhar parado e indiferente do todo-poderoso BCE.
Passaram oito anos. Com desemprego, pobreza e recessão, os países periféricos pagaram o facto de serem a economia errada, no momento errado, no sítio errado. Promessas foram feitas: os mercados seriam controlados. Mas, desde então, o BCE injetou milhões de milhões de euros num sistema financeiro que continua demasiado endividado, forrado de ativos tóxicos ou desvalorizados pela crise prolongada na Europa. Crise europeia que, diga-se, o desempenho das economias emergentes já não consegue mascarar.
Eis agora que o maior banco alemão, o Deutsche Bank, aparece a anunciar perdas de 6000 milhões de euros, sabendo-se que detém derivados no valor de 65 triliões, umas vinte vezes o PIB alemão. E que foi condenado a pesadas multas por manipulação de mercado.
Perante isto, tudo isto e mais a crise dos refugiados, o perigo da extrema-direita e a eventual saída do Reino Unido da União Europeia, o ministro das finanças Alemão, Wolfgang Schäuble, não encontrou melhor explicação para o "nervosismo" dos mercados do que o Orçamento do Estado português, o tal que se atreveu a fazer valer, ainda que timidamente, um pouco de autodeterminação.
Isto já só não espanta quem tiver deixado de ver para além da pequena gaiola onde nos enfiaram com a história do "portem-se bem, a culpa é toda vossa, viveram acima das vossas possibilidades". Uma Europa lamentável e, acima de tudo, muito triste.»
Mariana Mortágua, 16Fev2016- JN
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