segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Fundos soberanos retiram dinheiro dos fundos a ritmo recorde em 2015

Patrícia Abreu | pabreu@negocios.pt | 22 Fevereiro 2016, 15:28




«A quebra das receitas devido aos baixos preços do petróleo está a motivar uma onda de desinvestimento por parte dos fundos soberanos. Em 2015 registaram um volume recorde de resgates das gestoras.
Os fundos soberanos retiraram dinheiro das suas aplicações em gestoras de activos a um ritmo recorde em 2015. E os resgates podem continuar este ano, com os países produtores de petróleo a assistirem a uma quebra das suas receitas devido às baixas cotações do petróleo.

Estes fundos públicos, que gerem as receitas de países produtores de matérias-primas, retiraram 46,5 mil milhões de dólares das gestoras de activos em 2015, um valor superior ao registado durante a crise financeiro, avança o Financial Times. Estas saídas de investimento decorrem num momento em que estes países procuram dinamizar as suas economias.
De acordo com a mesma notícia, estes resgates tiveram um impacto negativo na rentabilidade de entidades como a BlackRock, a Aberdeen, a State Street ou a Franklin Templeton.


Menos receitas, maiores resgates

E os resgates não deverão ficar por aqui. A agência de notação financeira Moody’s prevê que os desinvestimentos por parte dos fundos soberanos aumentem, pelo menos, 25% este ano, devido à quebra das cotações do petróleo.

"Os fundos soberanos dependentes do petróleo deverão aumentar os resgates das gestoras de activos", uma evolução que deverá ter um efeito negativo na indústria de gestão de activos, adiantou a agência.

Quatro dos maiores fundos detidos por países estão sediados em países produtores de petróleo. A Noruega, que gere o maior fundo do mundo, poderá retirar 8,4 mil milhões de dólares do fundo este ano, avisou o governador do banco central norueguês na última semana

Os fundos soberanos são responsáveis pela gestão de sete biliões de dólares.»

Como a China quer ser o “patrão” da economia global

André Veríssimo | averissimo@negocios.pt | 22 Fevereiro 2016, 17:17




«Serviços são a aposta para assegurar crescimento anual de 6,5% até 2020. Conselheiro económico do Governo chinês esteve em Lisboa a explicar o plano quinquenal de Pequim.
Chi Fulin, presidente do China Institute for Reform and Development, esteve segunda-feira em Lisboa para a inauguração do ciclo de Grandes Conferências sobre a China. O economista, conselheiro do Governo de Pequim, explicou o plano com que o país pretende assegurar um crescimento de 6,5% nos próximos cinco anos.

Serviços, serviços, serviços. Fazer do sector terciário o motor da economia é a prioridade do 13º plano quinquenal desenhado pelo Comité Central chinês, que compreende os anos de 2016 a 2020.

No final de 2001 o sector dos serviços pesava 41,3% do PIB. No ano passado já valia metade da economia (50,5%). O objectivo é chegar aos 58% até 2020, através de um crescimento anual de 8%. Este é um passo essencial para chegar ao novo "normal" de um crescimento da economia de 6,5% ao ano nos próximos cinco anos. No fundo ser a âncora para manter o país a crescer a um ritmo inferior aos últimos anos, mas ainda assim robusto.


A sala do Centro Cultural de Belém, quase cheia, e onde se destacavam responsáveis de algumas empresas portuguesas com capitais chineses – casos de Nuno Alves, administrador financeiro da EDP ou Rodrigo Costa, presidente executivo da REN – ouviu Chi Fulin explicar que o próximo plano quinquenal "pretende marcar um ponto de viragem histórico para a economia chinesa". Na cerimónia participaram também a secretária-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Ana Martinho, e o embaixador da China em Portugal, Cai Run.

Aumentar a população urbana

Uma das pedras angulares da estratégia é o aumento da população urbana, que consome mais serviços, como educação, saúde e lazer. O rendimento médio per capita nas cidades é três vezes superior ao das zonas rurais na China.

No final do ano passado, 56,1% dos chineses vivia em cidades. O objectivo para 2020 é chegar aos 60%, um crescimento de 1,2% ao ano. Para isso, o Governo pretende implementar um registo unificado da população em todo o país, e resolver o problema do acesso à segurança social e à saúde dos migrantes. "Toda a população urbana permanente deverá estar coberta pelo serviço público básico até 2020", afirma o economista.


Esta aposta passa também por mais investimento público. Em cima da mesa está a impressionante soma de 42 biliões de yuans até 2020 (5,84 biliões de euros), para promover a construção urbana e rural e construir um sistema de comboios rápidos a ligar as cidades.

O aumento do consumo interno é outra trave mestra do plano. "A China está a passar de uma economia de consumo de subsistência para um consumo desenvolvido", garantiu o presidente do China Institute for Reform and Development. E deu como exemplo o facto de seis milhões de chineses terem viajado para o estrangeiro durante as férias do Novo Ano chinês, contra dois milhões no ano anterior. E deixou o recado: "O turismo português deve estar atento a este potencial".


Assegurar 25% do crescimento global

Chi Fulin elencou algumas das reformas que a China terá de empreender nos próximos anos. Elas passam por uma maior abertura do sector dos serviços à iniciativa privada (que é de 50%, contra 80% na indústria), por lidar com o excesso de capacidade instalada na indústria (sobre a qual não se alongou), por adoptar um sistema nacional de registo de residência e por uma reforma do sistema de supervisão dos mercados financeiros.

Sobre este último ponto, o conselheiro do Governo chinês disse acreditar que a reforma permitirá "melhorar o mercado accionista, que não reflecte a situação da economia". E salientou que "é preciso acelerar" esta reforma.

"Com as reformas nestas quatro áreas a China pode ter um grande potencial de crescimento. Crescer a 6,5% nestas condições é possível. A China tem contribuído com 25% para o crescimento global e nos próximos anos este peso vai manter-se estável", acredita Chi Fulin.
Se a China conseguir levar a cabo as reformas estruturais e alcançar os seus objectivos de desenvolvimento, poderá ser o "novo patrão da economia global", garante.

Por abordar ficaram algumas das fragilidades que são apontadas à economia chinesa, como o elevado endividamento da economia, superior a 250% do PIB, o aumento do crédito malparado ou o sector financeiro sombra.»





terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

É mesmo, Schäuble?

Não concordando , de um modo geral , com a perspectiva do BE sobre as opções económicas e políticas para Portugal, não deixo de reconhecer razão à autora do texto que a seguir transcrevo:




«Verão de 2007. Portugal estava a banhos e descansava sobre um crescimento económico de quase 2,5%, a que se juntava o défice abaixo das exigências de Bruxelas e uma dívida de 68% do PIB.


Do lado de lá do mar, o sentimento era outro. O Lehman Brothers mostrava os primeiros sinais de instabilidade. Ainda assim, ninguém fez grande caso, até o banco apresentar perdas de 3900 milhões, deixando os mercados em estado de sítio. O resto da história já sabemos. O fim da bolha do imobiliário norte-americana deixou o sistema europeu em apuros, secou o financiamento à atividade económica e obrigou a gigantescos resgates com dinheiro dos contribuintes. As economias periféricas, mais frágeis, foram as primeiras a cair, assim que a loucura dos especuladores chegou às dívidas públicas. Sob a pressão das agências de rating, o financiamento dos estados ficou insuportavelmente caro, precisamente no momento em que era mais necessário. E, tudo isto, sob o olhar parado e indiferente do todo-poderoso BCE.


Passaram oito anos. Com desemprego, pobreza e recessão, os países periféricos pagaram o facto de serem a economia errada, no momento errado, no sítio errado. Promessas foram feitas: os mercados seriam controlados. Mas, desde então, o BCE injetou milhões de milhões de euros num sistema financeiro que continua demasiado endividado, forrado de ativos tóxicos ou desvalorizados pela crise prolongada na Europa. Crise europeia que, diga-se, o desempenho das economias emergentes já não consegue mascarar.


Eis agora que o maior banco alemão, o Deutsche Bank, aparece a anunciar perdas de 6000 milhões de euros, sabendo-se que detém derivados no valor de 65 triliões, umas vinte vezes o PIB alemão. E que foi condenado a pesadas multas por manipulação de mercado.


Perante isto, tudo isto e mais a crise dos refugiados, o perigo da extrema-direita e a eventual saída do Reino Unido da União Europeia, o ministro das finanças Alemão, Wolfgang Schäuble, não encontrou melhor explicação para o "nervosismo" dos mercados do que o Orçamento do Estado português, o tal que se atreveu a fazer valer, ainda que timidamente, um pouco de autodeterminação.


Isto já só não espanta quem tiver deixado de ver para além da pequena gaiola onde nos enfiaram com a história do "portem-se bem, a culpa é toda vossa, viveram acima das vossas possibilidades". Uma Europa lamentável e, acima de tudo, muito triste.»


Mariana Mortágua, 16Fev2016- JN

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Uma análise SWOT ao Orçamento de Centeno

Rui Peres Jorge | rpjorge@negocios.pt | 11 Fevereiro 2016, 20:30


(Nota : Negrito, sublinhados , itálico e alguns parêntesis e observações ,  de minha autoria)


«A algaraviada orçamental das últimas semanas levantou tanta poeira sobre a proposta de Orçamento do Estado para 2016 que se tornou difícil avaliá-lo. É um documento com demasiados riscos, mas que tem também importantes virtudes e que, em todo o caso, não justifica a crispação que se gerou em torno dele como bem apontou há dias Manuela Ferreira Leite.

Sejamos claros, o Orçamento não vira a página da austeridade: é um orçamento que continua a reduzir o défice público, mesmo o estrutural, e isso significa um estímulo contraccionista sobre a economia. Mas é igualmente verdade que o faz no contexto de algum crescimento económico, como mandam os livros e, talvez ainda mais importante, que procura um caminho autónomo para Portugal, (?? ) que se desmarca do "ir além da troika" e assume um ajustamento orçamental mais lento, e por isso mais sensato, das contas públicas portuguesas.

É também um orçamento mais equilibrado na concepção dos factores de crescimento de um país que, no contexto das economias avançadas, é pobre, desigual e pouco produtivo. Deixa por isso, e bem, cair a ideia radical de atribuir prioridade máxima à redução da carga fiscal sobre as empresas para relançar a economia, como se estas merecessem privilégios institucionais ( merecem alguns , bem direccionados , aliás , como o próprio governo assumiu) face às famílias ou ao Estado. Todos são importantes, a todos o Governo deve procurar facilitar a vida.

Na procura desse equilíbrio, recompõe a carga fiscal (que deixa ainda assim abaixo dos planos do anterior governo para 2016) penalizando impostos sobre consumo e importações, e empenha-se em acelerar a reposição da normalidade económica no pós-troika, tornando prioritários apoios sociais à pobreza mais severa, no que, isso sim, é o virar de uma das páginas mais negras do período de ajustamento.

Mas é também um orçamento com vários problemas. É pouco transparente e até trapalhão em muita da informação que veicula, com incoerências entre o esboço orçamental e a proposta final, o que gerou um sentimento de desconfiança entre os observadores qualificados (da Comissão Europeia, à UTAO e ao Conselho das Finanças Públicas) o que, necessariamente, transparecerá para a sociedade, para os credores e para os investidores.
Assume também riscos excessivos para uma economia numa situação frágil. Promete muita eficiência, mas assume poucos compromissos sobre como a garantirá, confiando num jackpot orçamental com as receitas de contribuições sociais e em poupanças difusas no funcionamento do Estado. A estes riscos de execução, acresce ainda a ideia de que os preços vão acelerar, inflacionando o país para longe da insustentabilidade da dívida, o que é uma hipótese arriscada em qualquer exercício.
Como reconheceu o discreto secretário de Estado do Orçamento será a credibilidade da execução deste orçamento que dará a Portugal a tranquilidade que necessita para ultrapassar as muitas dificuldades que enfrenta. Tem muita razão. Esperamos que também a tenha nos planos que agora apresenta ao país.

Aqui ficam a minha análise SWOT – a sigla em inglês para Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças – ao orçamento de Centeno:


Forças
Apoio ao ajustamento mínimo de Bruxelas
A prioridade à devolução de cortes salariais à função pública, ao alívio da tributação sobre o rendimento das famílias, e ao reforço de algumas prestações sociais como o RSI, o CSI ou taxas moderadoras dão um sinal de tentativa de normalização da situação económica e social, e invertem uma tendência que a própria OCDE identificou em Portugal que cortar apoios aos mais pobres dos mais pobres. Esta é também a chave para uma das principais forças políticas do documento: a capacidade de manter o Bloco de Esquerda, o PCP e os Verdes num barco socialista que prevê uma redução estrutural do défice orçamental, o que evita conflitos em campo aberto com Bruxelas – um luxo a que o país não se pode permitir pelo menos por enquanto.


Mecanismos económicos inteligentes
O Orçamento prevê um conjunto de mecanismos que procuram calibrar a política económica de forma inteligente e saudável – embora não isentos de riscos de execução. Devolve salários no Estado, mas compensa com ganhos de eficiência na máquina pública; devolve rendimentos às famílias, mas tributa o crédito, automóveis e combustíveis que são essencialmente bens importados; e, finalmente, compensa descidas de IRS com subidas de impostos indirectos específicos, em particular carros, combustíveis e tabaco.


Almofadas de segurança significativas
O Orçamento conta com quase mil milhões de euros de almofadas de segurança entre a dotação provisional inscrita no orçamento do Ministério das Finanças (501,7 milhões de euros), a reserva orçamental exigida à maior parte dos serviços (193,2 milhões de euros) e ainda 356 milhões de euros de cativações de despesa na Administração Central que carecem de aprovação das Finanças para serem gastas. Além disso, as análises de risco inscritas no Orçamento concluem que os impactos de um abrandamento da economia (crescimento de 0,8% em vez de 1,8%), de uma subida de juros no curto prazo (de 0% para cerca de 1%); ou de menos procura externa (um aumento de 3,3% em vez de 4,3%) não levariam o défice acima de 2,5% do PIB. ( ?? )


Fraquezas
Falta visão de longo prazo
O orçamento  padece do mesmo problema identificado por Mário Centeno na dura resposta que escreveu a Bruxelas sobre as reformas dos anos da troika: falta uma perspectiva de médio e longo prazo no documento. O Governo está ainda no início, teve um arranque de mandato complicado, mas ninguém perceberá que esta lacuna se mantenha no Programa de Estabilidade a apresentar em Abril.

A descida do IVA na restauração

Um ponto em que o Orçamento se perde no labirinto dos acordos à esquerda é na descida do IVA da restauração. Que sentido faz optar por baixar o IVA neste sector por oposição a uma descida generalizada da TSU dos trabalhadores com salários mais baixos? Se a prioridade é criar emprego, então reduzir generalizadamente os custos do trabalho seria uma medida mais eficaz, e mais justa. Este é porventura o maior erro de política económica do documento.


Muitos riscos nas previsões e promessas
O documento é pouco transparente em várias dimensões, e uma delas, talvez a mais arriscada orçamentalmente, é a promessa de poupar 800 milhões de euros com ganhos de eficiência da máquina pública. (??)Não é por acaso que a Comissão Europeia continua a apontar para saldo orçamental mais próximo dos 3% do PIB, do que dos 2,2% do Governo.  Mas há uma outra previsão que precisa de ser melhor explicada: um crescimento de 6,3% das contribuições para a Segurança Social, quase 1300 milhões de euros, isto quando as remunerações na economia avançam apenas 3%. Estes são riscos e avisos sérios à execução do orçamento.


Ameaças
Mercados não estão para brincadeiras
A economia e os mercados financeiros internacionais não estão para imprudências, especialmente para uma economia frágil como a portuguesa. A banca europeia continua sob forte pressão, mantêm-se dúvidas sobre a capacidade do BCE e das políticas nas várias capitais europeias solidificarem a tão esperada recuperação da Zona Euro; e ninguém sabe muito bem para onde vai o preço do petróleo ou que instabilidade política pode gerar e onde. Acresce que três importantes economias parceiras de Portugal nos últimos anos (Angola, Brasil e China) estão a enfrentar dificuldades. Não admira que o risco da dívida portuguesa tenha subido. E assim se percebe que o Conselho das Finanças Públicas tenha sublinhado a importância da prudência. 


Pressão excessiva de Bruxelas
Pelo menos nesta fase a Comissão Europeia procura um equilíbrio difícil: garantir a pressão externa suficiente para que as regras europeias de défice sejam cumpridas, mas evitar pressão excessiva que conduza a instabilidade política num governo que, embora confrontacional, garante que cumprirá as regras mínimas de participação na Zona Euro. Após o recente embate em torno do esboço orçamental, um teste de fogo chegará já em Maio com a avaliação do Procedimento dos Défices Excessivos (que coincidirá com a avaliação do Programa de Estabilidade) no qual a Comissão terá a possibilidade de aplicar sanções ao país. Um dos comissários veio já dizer que a saída do PDE em 2016 não está garantida.


Instabilidade da coligação
Provavelmente este foi o orçamento em que o apoio do PCP, Bloco de Esquerda e Verdes foi mais fácil de garantir. Um desentendimento apenas três meses após a tomada de posse do Governo seria desastroso. Mas se a execução orçamental correr mal, e Bruxelas exigir mais medidas de consolidação, o governo pode ter de escolher entre as regras europeias que sempre disse que iria cumprir, e as prioridades dos partidos que lhe dão apoio no Parlamento e que se opõem às directrizes de Bruxelas. A dificultar ainda a estabilidade política está um menor número de medidas políticas caras à esquerda que facilitem negociações bem sucedidas.


Oportunidades
Uma emancipação intelectual face à troika (??)
É tempo de Portugal pensar pela sua própria cabeça que reformas estruturais necessita e como as poderá implementar. Os últimos anos foram confrangedores: a reforma do Estado foi apresentada num texto com duplo-espaço deduz-se que para ocupar mais páginas de onde nunca saiu, as instituições internacionais prevêem hoje um crescimento potencial menor do que antes da crise, e o pós-troika fica marcado pelos vários desaires bancários que custaram o défice de dois anos e desacreditaram o Banco de Portugal. Mário Centeno tem várias vezes nas últimas semanas elencado quatro áreas prioritárias de reforma: administração pública; regulação financeira, segmentação do mercado de trabalho e financiamento da segurança social, e financiamento das empresas. Venham as propostas.


Terminar com a economia do medo
Umas das consequências mais nefastas da crise dos últimos anos foi o surgimento do que tendo a chamar de "economia do medo", assente em generalizações excessivas pós-traumáticas da forma como funciona a economia. "Os mercados vão fulminar o país por ousar desafiar as recomendações de Bruxelas"; "os consumidores levarão o país à bancarrota"; "não há forma de reformar o Estado sem terapias de choque"; "O serviço público fica ameaçado com qualquer a redução do número de funcionários " ; "Portugal vai ser vendido ao desbarato ao capital estrangeiro" são exemplos de más ideias, que paralisam a criatividade e o debate . É preciso voltar a confiar nos portugueses e vencer preconceitos. Este é o primeiro governo após a intervenção externa, tem essa oportunidade.  Esperemos que a aproveite. ( não será fácil a uma economia débil, aberta ao exterior e com pouca disciplina de gestão, privada e pública)









domingo, 7 de fevereiro de 2016

Os partidos também morrem

Eva Gaspar | egaspar@negocios.pt | 03 Fevereiro 2016




«Qualquer que fosse o governo, Portugal estaria neste momento de candeias às avessas com Bruxelas para fazer um Orçamento perfeitamente coerente com as regras e compromissos europeus, o que significaria reduzir anualmente o défice estrutural em pelo menos 0,5 pontos percentuais a caminho do equilíbrio e manter o nominal abaixo de 3% do PIB.
No Outono, as previsões europeias apontavam para uma melhoria marginal do défice nominal de 3% em 2015 para 2,9% em 2016 e para um novo agravamento do défice estrutural, de 1,8% para 2,3% do PIB. Isso significava, logo à partida, que qualquer promessa de "virar a página da austeridade", dentro - e mais ainda fora - do euro, era uma quimera. Poder-se-ia fazer uma austeridade diferente, até menos austeridade, mas na justa medida em que se fizessem cortes – e mais amplos - noutras áreas da despesa do Estado e/ou se aumentassem impostos, taxas e taxinhas.

Desde Abril até esta semana, ouvimos quatro metas socialistas para o défice de 2016: primeiro 3% do PIB com um crescimento de 2,4%, depois 2,8% e 2,6% com um crescimento de 2,1%, e agora 2,4% com um crescimento de 1,9%. Tomando os números como bons, isso significa que o PS está conscientemente a impor ao país um conjunto de medidas que significam mais austeridade e menos crescimento a troco do apoio das extrema-esquerda para estar no poder.

Todos os organismos, nacionais e internacionais, que se pronunciaram sobre os planos orçamentais do PS desaprovaram-nos, nos seus números e nas suas orientações. A "slot machine" de Mário Centeno – gasta um euro, saem quatro – não convencerá nem o próprio. Nos cálculos da UTAO, o ilusório "adeus à austeridade" exigirá que o Estado peça emprestado mais 11 mil milhões de euros do que estava previsto há apenas três meses.

A aliança do PS com os que diabolizam a Europa, os mercados, a banca e os capitalistas está, afinal, a querer ficar mais dependente de todos eles e fazer mais dívida para ser paga pelos governos que se lhe seguirem – e talvez para ter ainda mais argumentos para logo a seguir exigir à Europa, aos mercados, à banca e aos capitalistas que perdoem o dinheiro que agora se lhes pede.

O PS que há menos de cinco anos pediu a Bruxelas um empréstimo de mais de 70 mil milhões de euros para evitar a bancarrota, que tem defendido mais integração, que é até favorável a um governo europeu - o que significa dar real direito de veto à Comissão Europeia sobre esboços de orçamentos - é o mesmo PS que destrata o Conselho de Finanças Públicas (que, em bom rigor, deveria não emitir um parecer mas fazer os cenários macro sobre os quais os governos fariam opções de políticas). E é o mesmo PS que manda para Bruxelas um orçamento com contas marteladas e em "risco de grave incumprimento" das regras acordadas. Nenhum país, nem França, nem Itália, nem Espanha ousou tanto: os seus primeiros esboços de orçamentos também foram recusados, mas por mero "risco de incumprimento". Nenhum deles tem rating "lixo" nem acaba de sair de um resgate.

Isto não é negociar. Negociar passa por explicar com transparência o que se pretende alcançar, tentando cumprir com boa-fé as regras acordadas, podendo ganhar-se com isso também credibilidade para ser-se agente da sua mudança. Foi isso que Vítor Gaspar tentou, e até poupou ao país dois mil milhões de euros em juros. Os partidos também morrem, e o PS europeísta estará a definhar. Ainda não será eurocéptico, mas parece ser hoje conduzido por uma tropa de eurocínicos.

Teremos um quadro mais completo e definitivo no fim de Abril, quando António Costa (que, desavisadamente, é o ministro das Finanças deste governo) entregar a Bruxelas o planeamento orçamental para 2017 e 2018. Veremos então se continuará a perder pontos à toa na credibilidade externa, incapaz de domar a agenda radical daqueles de quem depende para se manter no poder.

O ritmo, a amplitude e o desatino da reversão de medidas têm sido alucinante. Na Educação (fim de exames, novos exames, novas regras de colocação de professores, travões na autonomia das escolas), na Função Pública (reposição integral de salários num só ano, regresso à semana de 35 horas, fim da mobilidade, possibilidade de reforma antecipada aos 55 anos), na reversão das concessões de transportes (leia aqui o que escreve Vital Moreira), na reposição dos complementos de reforma nas empresas públicas, na tentativa de renacionalização da TAP, na reposição de viagens gratuitas para os familiares dos funcionários da CP, na subida do salário mínimo acima da produtividade esperada, no regresso de quatro feriados... Neste momento, é a cauda que abana o cão. Em breve, a cauda pode cair porque a motivação para abanar o cão estará saciada.

O pecado original estará na narrativa criada por António Costa para legitimar a sua aliança com a esquerda radical, porque ela assenta na negação de uma parte fundamental da realidade portuguesa - de parte das suas limitações (dívida elevadíssima, dependência de financiadores externos, fraca competitividade, instituições frágeis), mas também de parte das suas conquistas recentes. Ao fim de décadas no vermelho, o saldo externo é positivo, assim como o saldo orçamental primário (ou seja, depois de pago o serviço da dívida), o desemprego caiu para menos de 12% em Dezembro (valor de 2010) e a economia terá crescido no ano passado 1,5%. É bem verdade que é quatro vezes menos do que cresceu a Irlanda e metade do que aqui ao lado em Espanha, mas é 50% mais do que Portugal cresceu em média entre 2000 e 2010, período em que a dívida pública quase triplicou e se injectou milhares de milhões de fundos europeus.

Ou seja, ao contrário do que António Costa alegou e alega, ainda não é possível "virar a página da austeridade" e não é preciso inverter nenhum "ciclo de empobrecimento", porque ele já foi invertido - desejável é acelerar e consolidar a tímida inversão que vêm de trás. E ter uma noção de rumo. A gestão dia-a-dia dos interesses do BE, PCP e Verdes – que mereceram menos de 20% dos votos – é necessariamente uma política sem tino, e ela é hoje o maior risco para o país.

Como bem me recorda um sábio conselheiro político, "a lógica da competição política é o poder, não é o bem comum". Isso ajudará a explicar porque António Costa "não está apoquentado" ao mesmo tempo que o presidente da Comissão Europeia se diz "muito preocupado". Depois do Syriza, o euro ficou com porta de saída. António Costa parece que não sabe. Vai amanhã a Berlim. Ouvirá que novos governos têm sempre o benefício da dúvida, mas que eleições num país não mudam regras acordadas por 28. Ouvirá também que "um bom europeu é o que respeita os tratados e a legislação nacional e ajuda a que a estabilidade na Zona Euro não sofra danos".

Angela Merkel é poderosa também porque é previsível, e tem experiência q.b. para topar ao longe um europeísta mais interesseiro do que interessado. Na semana passada recebeu Matteo Renzi em busca dos seus bons ofícios para que Roma tivesse mais flexibilidade orçamental, oferecendo como moeda de troca maior empenho de Itália no controlo da fronteira externa de Schengen e boa-vontade nas negociações para tentar manter o Reino Unido na União. Nesta sexta-feira, é capaz de receber mais um.»