quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Sobre o caso Banif I

Bruxelas impôs Santander quando ainda decorria concurso de venda do Banif

Público


A 15 de Dezembro, os gestores do Estado no Banif escreveram a Jorge Tomé a dizer que o Governo os informou que Bruxelas queria o banco vendido a uma instituição a operar em Portugal, três vezes maior.




À medida que se aproxima o início dos trabalhos da comissão parlamentar de inquérito à nacionalização e venda do Banif, ainda sem data agendada, vão surgindo informações que ajudam a levantar o véu sobre o que aconteceu nas vésperas da decisão de resolução que poderá implicar perdas para o Estado até 3200 milhões de euros (2400 milhões já garantidos). O BCE e Bruxelas impunham o Santander nos bastidores, mas oficialmente garantiam que não intervinham.
Durante o processo de venda do Banif, os dois gestores indicados pelo Estado, Miguel Barbosa e Issufa Ahmad, enviaram um email aos restantes administradores da equipa liderada por Jorge Tomé com o seguinte teor: de acordo com instruções da DGCOM para o secretário de Estado das Finanças, o concurso para a alienação do banco teria de respeitar condições, nomeadamente, a venda a uma instituição a operar em Portugal cuja dimensão fosse três vezes superior à do Banif. O adquirente não podia ainda beneficiar de auxílio estatal. A missiva foi dirigida ao início da tarde de 15 de Dezembro, terça-feira, quatro dias antes de terminar o prazo indicativo para a venda em concurso, sexta-feira, 18 de Dezembro. O que constitui uma tentativa de Bruxelas de condicionar o resultado do concurso de venda do Banif. A iniciativa de Barbosa e de Ahmad precedeu ainda em seis dias a resolução do banco, decretada domingo, 20 de Dezembro.
O Estado detinha 61% do capital do Banif, o que levou à nomeação dos dois administradores, Miguel Barbosa e Issufa Ahmad, com poderes de decisão e de veto, e de três membros para a comissão de auditoria. Desde Setembro de 2014 que Barbosa estava a tempo inteiro no Banif, onde tinha o pelouro do risco, indicado pelo BdP em representação do Estado. Barbosa foi ocupar o lugar deixado vago por António Varela, que, em Setembro de 2014, passou a integrar a administração do Banco de Portugal por nomeação da ex-ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque.
Em Portugal, apenas dois bancos, Santander e BPI, cumpriam as exigências de Bruxelas em termos de dimensão (três vezes maiores) e de não terem ajudas públicas. Isto, dado que o BPI já devolveu o empréstimo estatal de 1500 milhões de euros de Coco’s. Mas na prática, sem o mencionar, Bruxelas restringiu a venda ao Santander. Porquê? Ao contrário da filial do grupo espanhol, o BPI não foi convidado a apresentar uma oferta de compra do Banif.
E dos seis grupos que entregaram propostas, três fizeram-no por sugestão do BdP: os dois grupos espanhóis Santander e Banco Popular e o fundo de private equity norte-americano Apollo (dono da Tranquilidade). A 18 de Dezembro todos entregaram ofertas vinculativas, embora a da Apollo não a comprometesse, o que só veio a acontecer no sábado à noite, com sugestão de início de negociações domingo de manhã.
O Governo e o BdP acabaram por não receber o fundo norte-americano alegando “falta de tempo” e por acatar a imposição das autoridades europeias. E a 20 de Dezembro o Santander comprou os activos bons do Banif com um apoio dos contribuintes portugueses de quase 2000 milhões de euros (as perdas totais para o Estado podem chegar a 3200 milhões). Um dos temas que a comissão de inquérito terá de avaliar é se as condições da proposta entregue a 18 de Dezembro pelo Santander no concurso de venda do Banif eram mais favoráveis aos interesses do Estado do que a que foi acordada, dois dias depois.
A meio da tarde de sexta-feira, 18 de Dezembro, em Bruxelas, onde participava numa Cimeira Europeia, o primeiro-ministro António Costa mostrava-se ainda confiante: “A minha esperança é que as ofertas que venham a existir dispensem a existência de um orçamento correctivo.” Apesar de o banco estar nacionalizado, António Costa já não dominava os acontecimentos e é agora forçado a tomar uma decisão em sentido contrário ao que pretendia. 
No dia 26 de Janeiro, no quadro de uma conferência sobre o desempenho do sector financeiro organizada pelo Instituto de Direito Económico Financeiro e Fiscal (IDEFF) da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde participou, Jorge Tomé explicou que, no processo de venda por concurso do Banif, apesar de o BdP “ter definido o perímetro e os investidores contactados para termos propostas vinculativas até 18 de Dezembro”, admitiu que “em paralelo alguma coisa se estaria a passar”. “Somando algumas peças, [posso concluir que] o Banco de Portugal começou a preparar a resolução do Banif.” Ou seja: “Por um lado, lançava o concurso, e, por outro, estava a preparar a resolução.”
A ajudar a complicar o desenlace do Banif esteve o facto de nos primeiros dias da semana, 14, 15 e 16 de Dezembro, o banco ter sido alvo de levantamentos de quase mil milhões de euros, o que colocou pressão sobre a sua solidez. No dia 13, uma notícia da TVI, do grupo espanhol Prisa, apontara para o fecho iminente do Banif, com encerramento de todos os balcões, despedimentos e perdas para os credores e depositantes, incluindo acima de 100 mil euros (a informação seria corrigida progressivamente nas horas seguintes).
As informações que têm vindo a público nas últimas semanas dão conta de uma intenção deliberada por parte da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu de fomentar a consolidação da banca espanhola, através da absorção dos bancos portugueses. E com colaboração do Banco de Portugal.
Na sua última edição, o Expresso revela uma carta trocada na manhã de 19 de Dezembro entre o BCE e o Governo. Nesse sábado, a presidente do Conselho de Supervisão do Banco Central Europeu, Daniéle Nouy, dirigiu um email a Mário Centeno, “com o conhecimento de Vítor Constâncio”, vice-presidente do BCE (e ex-governador do Banco de Portugal), onde informa: “A chamada com o Santander correu muito bem e a Comissão Europeia vai aprovar.”
Nesse momento, ainda decorria o concurso de venda do Banif, o que não impediu as movimentações de bastidores, pois, ainda segundo o mesmo semanário, o BCE admitiu que “há outras ofertas para o Banif, que de acordo com a Comissão não respeitam as regras de União Europeia das ajudas de Estado, e que por isso não podem seguir em frente. Daniéle Nouy tece ainda elogios rasgados ao Santander, “que se está a comportar de maneira muito profissional e tem um departamento legal excelente”, e diz que vai começar a trabalhar directamente” com o grupo espanhol. Não sem antes deixar um aviso a António Costa: “A Comissão Europeia foi muito clara neste aspecto, por isso, recomendo que nem percam tempo a tentar fazer passar essas propostas.
A ingerência documentada do BCE na definição do novo dono do Banif entra em clara contradição com a posição oficial do gabinete de imprensa do BCE. Depois da notícia do PÚBLICO de 8 de Janeiro, com o título “BCE recusou oferta que poupava 1700 milhões aos contribuintes”, a porta-voz da instituição europeia enviou um email: “O BCE não comenta situações de bancos individuais em processos de fusões e aquisições. O Banif não é supervisionado directamente pelo BCE e a sua venda foi supervisionada pelo Banco de Portugal.”  

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Défice estrutural

Défice estrutural. Indicador é "apenas instrumento de gestão", defendem economistas

02/03/2012 - Jornal i


A meta orçamental que os países da União Europeia vão ter de atingir quanto ao défice estrutural é "apenas um instrumento de gestão financeira" que, se for calculado seriamente, não apresenta problemas, afirmaram economistas contactados pela Lusa.

O défice estrutural resulta da diferença entre as receitas e as despesas públicas, excluindo os efeitos temporários e conjunturais (como a transferência do fundo de pensões da banca para o Estado, por exemplo) e assumindo que o Produto Interno Bruto (PIB) se encontra na sua trajetória tendencial (uso pleno dos seus recursos).

A 30 de janeiro, 25 líderes europeus (todos exceto Reino Unido e República Checa) aprovaram um "pacto orçamental", obrigando cada Estado-membro subscritor do pacto a não ultrapassar um défice estrutural de 0,5 por cento do PIB.

Jorge Landeiro Vaz, do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), reconhece que se trata de "um indicador complexo" mas relativiza, afirmando que "é apenas um instrumento de gestão financeira do orçamento de curto prazo e é tão válido como outro qualquer".

João César das Neves, professor da Universidade Católica, entende também que o cálculo do défice estrutural, "se for sério e bem feito", não é problemático: "É simplesmente uma maneira de olhar para as contas do Estado, esquecendo os efeitos de curto prazo", sintetiza.

Para César das Neves, o cálculo do défice estrutural permite uma aproximação "mais estável e mais credível" ao que será o défice efetivo. "Se nós usarmos o défice contabilístico estamos sujeitos a uma série de manipulações e até [aos efeitos de] medidas extraordinárias, azares e sortes do momento. O que temos de fazer é um esforço para nos aproximarmos de um número que seja mais estável e mais credível", justificou.

O economista da Universidade Católica considera que os eventuais problemas quanto ao cálculo deste indicador "se resolvem facilmente, usando uma metodologia que seja séria e que seja igual" para todos os países.

Para Landeiro Vaz, a principal consequência deste novo objetivo [limitar o défice estrutural a 0,5 por cento do PIB] é que "vai tornar mais apertada a gestão orçamental" e, tendo em conta que "na última década poucos cumpriram", o professor acredita que "poderá haver dificuldade em atingi-lo".

No entanto, para o economista do ISEG, "é mais importante hoje falar na dívida [que] nunca aumentou tanto como em 2011". Em 2010, a dívida portuguesa era de 92 por cento do PIB e no ano passado chegou aos 110 por cento do PIB, o que é "catastrófico e insustentável porque não vai deixar crescer o produto", diz Landeiro Vaz.

João César das Neves mostra também reticências quanto à capacidade de os 25 países da União Europeia que subscreveram o "pacto orçamental" cumprirem esta meta inscrita no documento. "É preciso dizer que estes mecanismos [de limitar o défice] já existiam [através do Pacto de Estabilidade e Crescimento] e, apesar disso, a coisa correu mal".

As propostas do Governo até 2019

Paula Cravina de Sousa e Lígia Simões - económico.sapo.PT - 20jan16

O documento enviado ontem pelo Governo aos parceiros sociais não avança o cenário macroeconómico. Saiba quais as propostas que o Governo enviou ao Conselho Económico e Social.


As Grandes Opções do Plano 2016-2019 (GOP), a que o Económico teve acesso, apresentam poucas novidades face ao que o PS já tinha previsto no seu programa de Governo. Por outro lado, o documento não inclui o cenário macroeconómico. Os principais dados deverão ser entregues pelo Executivo em Bruxelas no final desta semana.

Entre as principais medidas previstas nas GOP estão a reposição salarial dos funcionários públicos e a reposição do pagamento dos complementos de reforma nas empresas do Sector Empresarial do Estado (SEE). Já em termos fiscais por exemplo, o Executivo volta a falar em mexer nos escalões do IRS, aumentado o número de escalões e em abolir o quociente familiar - em que o número de dependentes entra no cálculo do imposto - substituindo-o por uma dedução por cada filho. Além disso, o documento refere ainda a criação de uma nova prestação social, chamada Complemento Salarial Anual, para combater as situações de pobreza entre as pessoas que têm trabalho, tratando-se de um crédito fiscal para proteger o rendimento destes trabalhadores. Os incentivos à reabilitação urbana e ao arrendamento a custos acessíveis voltam a ser referidos.
Rever o plano nacional de barragens
O Governo pretende reavaliar o plano nacional de barragens, no que respeita a obras que não se iniciaram. O Executivo defende ainda o incentivo das mini-hídricas. Portugal deve “explorar plenamente o seu potencial de produção das energias renováveis, nomeadamente de origem solar” pelo que o país “deve passar a encarar esta última como um bem transaccionável, numa lógica de exportação”, refere o documento.
Limitar contratos com termo
O Governo volta a propor a limitação do regime de contrato com termo e aumentar a taxa de conversão de contratos a prazo em permanentes. Neste âmbito, a TSU das empresas com excesso de rotatividade dos seus quadros será agravada, ao mesmo tempo que pretende revogar a norma do Código do Trabalho que permite a contratação a prazo para postos de trabalho permanentes de jovens à procura do primeiro emprego e desempregados de longa duração. Quanto a processos de conflitualidade laboral “será explorada a utilização de mecanismos ágeis de resolução dos conflitos”, uma matéria que será discutida com os parceiros sociais.
Factura da luz sem contribuição do audiovisual
O Governo propõe a passagem da contribuição do audiovisual para o universo das comunicações, retirando assim um peso da factura da energia eléctrica. Com esta medida o Executivo diz que não haverá perda de receita para a RTP. A medida tem como propósito conter os custos decorrentes do défice tarifário e está associada a outras que passam por renegociar as concessões do sector da energia, limitar a remuneração da energia hidroeléctrica em anos de seca, entre outras.
Passe de família e ‘cartão da mobilidade’
Além de insistir em dar mais poderes às autarquias no sector na definição das políticas relativas aos transportes urbanos, as GOP apresentam novidades como o “Cartão da Mobilidade” ou o passe de família nos transportes urbanos. Quanto ao “Cartão da Mobilidade” permitirá ao seu titular aceder a todos os serviços de transportes públicos, estacionamento, portagens, aluguer de veículos em sistemas partilhados ou carregamento de veículos eléctricos. O passe família é a outra das inovações, assim como a criação de bilhetes de grupo, para cinco ou mais pessoas. O Governo pretende ainda generalizar o acesso à internet nos transportes públicos e disponibilizar um serviço de título único de transporte nos telemóveis. Está também previsto o reforço dos descontos nos transportes públicos para os estudantes até as 25 anos. Na área portuária, as GOP apostam na criação de uma “Factura Única Portuária por Escala de Navio”, passando a ser única a representação de todas as entidades do Estado nos portos, que actualmente se dissemina pelas autoridades portuária, Alfândegas, SEF - Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e Autoridade Tributária, entre outras entidades. Com esta medida, o Governo pretende poupar cerca de 600 mil folhas de papel/ano por cada três mil navios.
Novo código de transparência
O Governo quer alterar a forma de governar e, entre outras medidas, propõe a adopção de um Código da Transparência Pública para os titulares dos cargos políticos, gestores e funcionários da Administração Pública, que regule a aceitação de presentes e de ‘hospitalidade’ disponibilizada gratuitamente por entidades privadas. O Executivo PS propõe ainda a criação de um registo público de interesses nas autarquias tal como já existe para os deputados e membros do Governo. Adaptar a estrutura orgânica do Governo com vista à integração de políticas transversais aos vários departamentos ministeriais e lançar um plano de médio prazo que articule políticas económica, de rendimentos e de protecção social. A legalização do ‘lobby’ é outra das estratégias do Executivo liderado por António Costa.
PS quer impor prazos ao Constitucional
Por causa da “grande imprevisibilidade”, o PS quer impor prazos de decisão ao Tribunal Constitucional para que este tome deliberações nas fiscalizações sucessivas da constitucionalidade. Actualmente, o Constitucional apenas tem prazos de decisão quando a fiscalização é preventiva (pedida por Cavaco Silva). O Governo defende ainda nas GOP a criação da figura do assistente constitucional, para juntar aos autos requerimentos, documentos, dados oficiais e estatísticas, bem como pareceres jurídicos ou técnicos, mesmo nos casos em que o processo de fiscalização abstrata, preventiva ou sucessiva, não decorra de sua iniciativa.
Porta 65 Jovem para rendas comerciais
O Governo quer rever e aprofundar o programa de apoio ao arrendamento jovem, o Porta 65, associando-o ao conceito de habitação acessível e quer alargá-lo ao arrendamento comercial para favorecer a abertura de novas lojas e novos negócios por jovens. A medida prevê o acesso dos jovens ao mercado de arrendamento preferencialmente de imóveis reabilitados.
A solução já estava prevista no programa de Governo do PS.
Novo fundo nacional de reabilitação
Uma das novidades é a anunciada intenção de criar um Fundo Nacional de Reabilitação de Edifícios, com capitais e gestão pública. Parte do capital inicial pode ser incorporado através da entrega de edifícios públicos a necessitar de reabilitação. Esse fundo será responsável pela reabilitação e gestão do parque nacional de edifícios, colocando-os no mercado após a respectiva reabilitação, sendo direccionado em especial para o arrendamento de ‘habitação acessível’. Outra medida é o financiamento, após concurso público, de pelo menos 25 Planos de Acção Locais para reabilitação de áreas urbanas desfavorecidas ou de génese ilegal com compromissos para ser respeitados num horizonte temporal de oito anos.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Quarta revolução industrial : Ameaça ou oportunidade?

Quarta revolução industrial levará à perda de cinco milhões de empregos em cinco anos



As principais economias mundiais serão as mais afectadas, revela relatório que vai ser divulgado pelo Fórum Económico Mundial.

A quarta revolução industrial pode causar a perda de cinco milhões de empregos em cinco anos nas principais economias mundiais, alerta um relatório divulgado nesta segunda-feira pelo Fórum Econômico Mundial (FEM), que organiza o fórum em Davos.

A quarta revolução industrial "irá causar grande perturbação não só sobre o modelo de negócio, mas também no mercado de trabalho durante os próximos cinco anos", disse o relatório divulgado antes do Fórum de Davos, que começa na quarta-feira.

Depois da primeira revolução (advento da máquina a vapor), da segunda (electricidade, linha de montagem) e da terceira (eletrónica, robótica) vem a quarta que combina diversos factores no trabalho, como a Internet e os dados que transformam a economia. Estas alterações resultam numa perda líquida de mais de cinco milhões de empregos nos 15 principais países desenvolvidos e emergentes, diz o FEM que analisou a situação em economias como a dos Estados Unidos, Alemanha, França, China e Brasil.

"São precisas medidas urgentes e concretas para esta transição, a médio prazo, e criar um grupo de trabalho com competências para o futuro, os governos terão de enfrentar um aumento constante do desemprego e da desigualdade" alerta o presidente e fundador do FEM, Klaus Schwab, em um comunicado.

Segundo outro estudo do Fórum de Davos, a quarta revolução industrial também terá consequências para as mulheres. "O peso da perda de postos de trabalho como resultado da automação e da desintermediação da quarta revolução industrial terá um impacto relativamente equitativo entre homens e mulheres", dos cinco milhões que vão perder o emprego, 52% são homens e 48% mulheres, revela o relatório.

O disparate das 35 horas

Foi você que pediu as 35 horas?





O regresso às 35 horas na Função Pública é um manifesto de que o irrealismo, o facilitismo e o corporativismo permanecem por aí.


Portugal, terceira semana de 2016. A Unidade Técnica de Apoio Orçamental garante que a estratégia anunciada pelo Governo vai fazer crescer a dívida em 11 mil milhões de euros até 2019; o défice subirá para acima dos 4% à custa do Banif e Mário Centeno deixa subentender que a Comissão Europeia vai impedir a saída do país do procedimento por défices excessivos; o consumo privado cresce e só o baixíssimo preço do petróleo nos salva de um persistente desequilíbrio da balança externa; fontes da Comissão Europeia e o próprio Banco Central Europeu criticam o Governo por não ter implicado os titulares de obrigações sénior do Banif a pagar o resgate do banco, poupando aos contribuintes mil milhões de euros; um pouco por todo o lado (incluindo cá), vão-se revendo em baixa as perspectivas de crescimento e há até quem avise que 2016 pode ser um ano de recessão e deflação global. Perante este cenário, fica-se com a ideia de que toda a Gália está cercada pela crise. Toda? Não, há uma pequena aldeia gaulesa que resiste. A da Função Pública.


Pedro Passos Coelho era muitas vezes (e quase sempre justamente) acusado de promover uma guerra desnecessária e perigosa entre os trabalhadores do sector privado e os funcionários públicos. António Costa há-de ser muitas vezes (e quase sempre justamente) acusado de a manter ou até de a acirrar. Porque se nos anos de chumbo do ajustamento se deixou instalar a ideia inaceitável de que os funcionários públicos eram uma casta de privilegiados que se alimentava da seiva da nação que trabalha e produz, o regresso de algumas benesses decidido pelo novo Governo faz regressar a percepção de que vivem protegidos por um sistema de partidos que os salva da crise como pagamento de supostos favores eleitorais. Não, não se trata das devoluções dos salários cortados, nem do fim da lista da mobilidade, nem do eventual regresso dos privilégios da ADSE. O que coloca os funcionários públicos sob a desconfiança do país é o regresso das inenarráveis 35 horas de trabalho semanal.


Diz António Costa, e os registos confirmam-no, que o que está em causa é o cumprimento de uma promessa eleitoral. Acrescenta o diploma aprovado esta semana no Parlamento que se pretende apenas garantir direitos básicos da civilização, como o da estabilidade familiar. Nota a cada passo o primeiro-ministro ou o seu ministro das Finanças que tudo isto se fará sem que se gaste mais um cêntimo do Orçamento. Tudo bem, mas não é isso que está em causa e, principalmente, não é isso que interessa. O que interessa é saber as razões que levam o Governo a avançar já com esta medida, precisamente no momento em que os sinais de que os perigos de uma recessão, do agravamento do défice e do crescimento da dívida alastram. O que interessa é saber se faz sentido que haja uma classe profissional favorecida com o regresso de um privilégio injusto e absurdo quando se sabe que, para sobreviverem, muitas empresas exigem aos seus trabalhadores esforços e horas de trabalho que estão para lá da lei e da decência.


A CGTP, António Costa, Catarina Martins ou Jerónimo de Sousa hão-de ver na pressa do Governo um definitivo manifesto do sentir da esquerda que está no poder. Não notam que essa é a esquerda fossilizada das corporações. Não percebem que essa não é a esquerda que promove a igualdade ou que protege os mais fracos. Não sentem que essa não é a esquerda empenhada na justiça social. Por que razão há-de uma funcionária de uma repartição trabalhar menos que a balconista de uma empresa privada? Por que razão há-de um contínuo de uma escola trabalhar menos horas do que um operário têxtil? Por que carga de água há-de um jurista de um ministério passar menos horas com processos do que um jurista de um escritório privado? Caso não tenha o Governo notado, todos têm famílias. Mas nem todos têm as mesmas condições e, principalmente, a mesma protecção política. Fiscalizar e punir os que abusam da precariedade seria, sim, uma ideia de esquerda; colocar toda uma classe profissional acima das outras é claramente um privilégio que pouco tem a ver com os valores que o Governo e os seus parceiros reclamam.


E é por ter essa certeza em mente que António Costa tanto se esforça por garantir que o recuo do horário de trabalho para as 35 horas não vai ter impacte no Orçamento. Era o que faltava separar o mundo entre os que trabalham mais horas e os que trabalham menos e pôr todos a pagar por essa benesse. Mas como não há almoços grátis nem trabalho sem salário, poucos acreditam que o Governo seja capaz de organizar os serviços ou convencer todos os funcionários públicos a abdicar das remunerações a que têm direito ou a trabalhar a desoras. É por isso que, na proposta que entregou na Assembleia, o ministro das Finanças não tratou de esclarecer como pode haver redução de horários sem gastos suplementares nas horas extra. Com o tempo, sempre haverá maneira e oportunidade de esconder esses pagamentos numa qualquer alínea da conta geral do Estado.


Depois de prometer na campanha, António Costa faz bem em cumprir no Governo. Mas há um tempo político para tudo. Há prioridades a estabelecer. Há compassos de espera a fazer quando não se têm em mãos todos os dados do jogo para decidir. Há o dever de prudência quando se tomam decisões sensíveis. Sendo uma medida que faz regressar o fosso e as desconfianças entre servidores do Estado e trabalhadores do privado, que tem impacte num défice que está de volta ao patamar dos 4% e que acentua a ideia de que este Governo é o governo do Estado para o Estado, António Costa deveria ter esperado por uma melhor oportunidade. Não se sabe se não o fez por convicção ou por contingência. Sabe-se, isso sim, que o braço armado de um dos partidos que o apoiam no Parlamento, a CGTP, tratou de ir logo para a rua ameaçar com greve caso essa ideia lhe passasse pela cabeça.


O regresso às 35 horas na Função Pública (não se discute que algumas classes profissionais devem ser contemplados com este horário) é por isso um manifesto de que o irrealismo, o facilitismo e o corporativismo permanecem por aí – anda certamente na campanha eleitoral mais fútil e estúpida que há memória. Se há alguma certeza que podemos tirar destas semanas, é que o sentido de urgência a que nos habituámos se perdeu. Perdeu-se no discurso delico-doce da educação, perdeu-se na dádiva de um horário mais curto a uma parte dos portugueses, perdeu-se na sensação de que a fragilidade política do Governo permite o regresso ao paraíso perdido dos sindicatos, perdeu-se na relativização de que a dívida e o défice são números abstractos que se podem remeter para contas futuras. Não é caso para dizer que está tudo perdido. Mas o cepticismo que alastrou esta semana pelo espaço público é sinal de que começam aqui e ali a irromper sentimentos de frustração e de medo. Veremos se o Orçamento os consegue dissipar. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Angústia no Pátio das Damas (uma ficção política)

Por: Viriato Soromenho Marques,18 DE JANEIRO DE 2016,DN

Com a nova Presidente outro muro caiu, mas desta vez os escombros tombaram para cima do governo minoritário do PS, que via o BE tomar pelo sufrágio o Palácio de Belém


Terça-feira, 5 de julho de 2016. Uma luz limpa e ainda morna derrama-se sobre Lisboa. Mas nenhum dos conselheiros de Estado, cujas viaturas sobem, quase em coluna, a rampa do Pátio dos Bichos, parece sentir a bondade da brisa subindo do Tejo. Os rostos contraídos refletem o inverno político em que Portugal voltou a mergulhar, precisamente quando alguma esperança na capacidade de iniciativa dos portugueses e suas instituições parecia ter regressado. Primeiro, timidamente, com o governo arrancado a ferros, por António Costa, apesar da derrota eleitoral em outubro do ano anterior. Depois, com "o duplo milagre português" nas presidenciais, usando uma expressão da imprensa internacional. Ser uma mulher a ganhar essas eleições já seria uma proeza, mas o verdadeiro milagre foi a vertigem onírica de ser a candidata de um partido da dita esquerda radical a bater o sempre afável entertainer televisivo das noites de domingo. Com a nova Presidente outro muro caiu, mas desta vez os escombros tombaram para cima do governo minoritário do PS, que via o Bloco de Esquerda tomar pelo sufrágio o Palácio de Belém.
Após a tomada de posse, em março, a presidente teve de enfrentar o seu primeiro desafio: promulgar o Orçamento do Estado [OE] de 2016. Depois de sucessivos atrasos, o OE foi discutido em Bruxelas no mês de fevereiro. As advertências que a Comissão Europeia fora deixando revelar acabaram por se traduzir numa humilhante experiência para o ministro Mário Centeno. Portugal estava ainda debaixo da disciplina do procedimento por défice excessivo, e o aumento de despesa pública, quantificado pelo próprio IGCP em mais 11 mil milhões de euros até 2019, não era aceitável. As exigências da CE e do Eurogrupo atingiam tanto a receita como a despesa. Contudo, Costa, movendo todos os seus frágeis cordelinhos europeus, conseguiu evitar o recuo nas medidas relacionadas com os salários, as pensões e os horários de trabalho, mas viu a carga fiscal aumentar, incluindo o sacrifício do simbólico IVA da restauração. O OE passou num Parlamento convulsionado, apenas com os votos do PS, e a abstenção do PSD. O PM explicaria à Presidente o ambiente gélido do Conselho Europeu, com toda a gente a pensar apenas no seu umbigo, desde Merkel, acossada pelos refugiados, a Cameron, obcecado com o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, até Rajoy, apostado em perpetuar-se, aliado a um PSOE miniatura. "Estamos por nossa conta"- concluiu Costa. E a Presidente promulgou o OE.
Mas o OE foi apenas o preâmbulo da tempestade que levou à reunião do Conselho de Estado. Havia clivagens, com expressão parlamentar permanente, entre o PS e a sua coligação de investidura. Vozes do PCE e do BE insistiam em que havia chegado a hora de o governo renegociar a dívida. Os ecos da instabilidade eram amplificados, na imprensa económica internacional, pelo veneno destilado pelos credores seniores do BES/NB, e das empresas interessadas nas concessões desautorizadas por Costa. Foram ignorados sinais claros, desde a desastrosa "solução final" imposta, no caso Banif, pela burocracia de Bruxelas e Frankfurt, de que a delicadeza do setor bancário luso aconselharia a não fazer muitas ondas. No início de maio rebenta a bomba. A DBRS, a agência de notação financeira de Toronto, a única que classificava a dívida de Portugal no limite positivo (BBB), degradou-a para BB. Uma reação em cadeia foi desencadeada: o BCE cortou o programa de compra de dívida a Portugal (QE); os bancos nacionais deixaram de poder financiar-se junto do BCE apresentando dívida do Estado como colateral; a má nota nacional espalha-se pelo setor económico e financeiro, prejudicando as empresas; os juros da dívida pública sofrem um brutal aumento; o BCE submete os bancos nacionais a um regime de liquidez de emergência (ELA), condicionado a uma recapitalização geral dos bancos nacionais, que só seria possível com um resgate à espanhola para o setor bancário, avaliado em 30 mil milhões de euros (para aliviar também parte do passivo nacional de 26 mil milhões da banca nacional junto do Eurossistema, no âmbito do Target 2). O ultimato político não foi publicado, mas tornou-se visível quando António Costa apresentou a sua demissão, e de imediato foi anunciada a disponibilidade do PSD e do PS para formarem uma coligação, com apoio parlamentar e sem necessidade de eleições, chefiada por Luís Montenegro e Francisco Assis. Era esse o tema central da reunião do Conselho de Estado: aceitar esse insólito governo ou correr o risco de entropia descontrolada até novas eleições.
Depois de se despedir de Adriano Moreira e de Francisco Louçã, os últimos a sair pela Sala das Bicas, Marisa Matias regressou ao seu gabinete. Só, afundou-se no sofá onde recebe os convidados e as delegações, trazendo sempre um qualquer assunto inadiável. O seu olhar demorou-se na nudez infantil e alegre dos anjos negros que sustentam os dois candeeiros das mesinhas laterais. A decisão está tomada, embora ainda se recuse a enunciá-la, sequer, em pensamento. Só nessa altura se recorda de que, exatamente um ano antes, o povo grego tinha votado maciçamente contra mais medidas de austeridade, num referendo convocado por um governo em desespero de causa. As imagens do que se seguiu fizeram a Presidente estremecer. Afinal, Marx não tinha razão. A história não repete sempre as tragédias sob a forma de farsa. Acontece que, na realidade, às vezes as tragédias podem repetir-se como outras tragédias. Iguais ou maiores.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

" A queda de Wall Street"

"A Queda de Wall Street" é um filme de Adam Mckay, que regressa à crise financeira de 2008. Depois de "Inside Job", voltamos à história de uma derrocada gigantesca a que quase todos fecharam os olhos. Estupidez, ganância e fraude minaram o capitalismo financeiro, como nunca tinha acontecido. Nem por isso se curou. Mesmo depois de terem sido os contribuintes chamados a pagar a fatura. Por cá, não faltam exemplos de desvario e impunidade. Um filme que ajuda a abrir os olhos.

(António José Teixeira, in Expresso Diário, 14/01/2016)

Não deixe para amanhã...

Quais as implicações de Costa reduzir em um terço reembolsos ao FMI?


de: André Tanque Jesus | andrejesus@negocios.pt | 13 Janeiro 2016, 12:39

                            


Quais as implicações de Costa reduzir em um terço reembolsos ao FMI?



«O objectivo de pagar ao FMI apenas um terço do que estava previsto é apenas uma revisão à revisão antes feita por Passos Coelho. Com esta, António Costa demora mais a pagar ao FMI, aumenta a factura dos juros e reduz a flexibilidade orçamental dos próximos anos. Mas esta aumenta no curto prazo.

Com a mudança de governos, os objectivos para o Estado e as respectivas políticas raramente se mantêm. E a transição de Passos Coelho para o Executivo de António Costa não foi excepção. Vários poderão ser os exemplos, mas um dos mais relevantes é o calendário de reembolsos ao Fundo Monetário Internacional (FMI), que foi prolongado além do que estava previsto. Mas quais são as implicações desta decisão?


Portugal demora mais a pagar ao FMI
A decisão de António Costa não é uma reestruturação da dívida, pois essa implicaria o alongamento dos prazos de pagamento, ou a redução das taxas de juro. Nem é um "haircut", como é conhecido o acordo que prevê uma redução nominal do montante em dívida. A decisão tomada pelo actual Governo é apenas a revisão aos objectivos definidos por Pedro Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque.


Aquando do acordo com a troika, o pagamento previsto para 2016 era de 2,6 mil milhões de euros. Mas o anterior governo quis adiantar os reembolsos e pagar 10 mil milhões. Aproveitava, assim, o ambiente de juros baixos proporcionado pela política do Banco Central Europeu (BCE), poupando algumas centenas de milhões de euros. O mesmo acontecia nos anos seguintes.
Mas o actual Executivo tem como objectivo um défice superior ao anteriormente previsto, o que exige um maior financiamento do Estado. Uma estratégia assumida pelo Governo e pelo Tesouro como conservadora, mas que obriga a reembolsos ao FMI mais lentos do que os previstos por Passos Coelho. Ainda assim, Portugal vai pagar ao FMI mais do que estava inicialmente previsto. São 3,3 mil milhões de euros em 2016 e 2,5 mil milhões em 2017, quando os valores previstos para estes anos já foram adiantados em 2015.


Factura com os juros aumenta
O empréstimo concedido pelo FMI a Portugal conta com duas taxas de juro diferentes. Até cerca de 3,4 mil milhões de euros, que correspondem a 300% da quota portuguesa na instituição, é aplicada uma taxa de apenas 1,05%. Por todo o montante que exceda essa fasquia, o Tesouro paga, actualmente, uma taxa de juro de 4,05%. Um valor elevado, que justifica a decisão do anterior Governo de reembolsar antecipadamente o FMI, tal como fez a Irlanda, através de financiamento no mercado secundário.
A taxa de juro das obrigações portuguesas a 10 anos ronda, actualmente, os 2,6% no mercado e já chegou a ser de um mínimo de 1,5%. A diferença entre o valor pago no mercado e o valor pago ao FMI traduz-se em poupança do Tesouro. Por isso, ao rever em baixa os reembolsos para este ano à instituição liderada por Christine Lagarde, o Executivo de António Costa está a reduzir essa poupança. Isto porque as taxas de juro estão demasiado baixas e, à medida que o BCE reduzir os estímulos à economia da Zona Euro, começarão a subir.

Mais flexibilidade orçamental agora, menos depois

A decisão de António Costa e Mário Centeno foi de pagar 3,3 mil milhões de euros ao FMI este ano, face aos 10 mil milhões que estavam previstos. Desta forma, há 6,7 mil milhões que não serão gastos. Um montante que o Governo usará para financiar o maior défice por si previsto, graças à mais rápida reposição dos salários da função pública, a diminuição da sobretaxa de IRS, entre outras medidas. Por outras palavras, António Costa consegue, assim, uma maior flexibilidade orçamental no curto prazo.

Mas o mesmo não pode ser dito em relação aos anos seguintes. Como o anterior executivo queria adiantar os reembolsos ao FMI, retirava responsabilidades ao Tesouro nos próximos anos. Uma vez que o actual Governo não quer ser tão célere no pagamento da dívida, a exigência financeira mantém-se praticamente inalterada a partir de 2017. Trata-se simplesmente de uma opção estratégica de António Costa e Mário Centeno, que tinham como bandeira eleitoral a reposição de rendimentos aos portugueses.»


















(Os valores referidos na tabela acima transcrita estão em milhões de euros. No caso da "previsão inicial", os reembolsos estavam desde logo definidos até 2024. O mesmo não acontecia com as estimativas do executivo de Passos Coelho, nem tão pouco com as actuais previsões do Governo de António Costa)

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Especuladores

Os Malvados especuladores - Ricardo Reis - dinheirovivo - 9jan16

«Quando temos de dar sentido ao nosso sofrimento, poucas explicações têm tanto apelo como as histórias dos bons e dos maus. 


Para cada infortúnio há um vilão que beneficiou com as nossas perdas e se ri às nossas custas. Nos debates sobre economia e bancos, os vilões tem um nome especial: especuladores. Eles são os primeiros a ser culpados quando o Estado perde dinheiro e exige-se que lhes sejam cobradas as perdas dos contribuintes. As aventuras do sistema financeiro em Portugal mostram, no entanto, que estes malvados especuladores são mais difíceis de achar na prática do que na retórica dos discursos. No caso do BPP, um banco que funcionava como um fundo de investimento, quem investiu centenas de milhares de euros, sobretudo em fundos de ações, perdeu o seu dinheiro. Pensava eu que tendo em conta as quantias e o tipo de investimento seriam estes os especuladores dos artigos de jornal inflamados. Enganei- me. As notícias descreviam pessoas que perderam as poupanças de toda a vida e doentes com depressões e tentativas de suicídio. Seguiu-se o BES e a perda dos depósitos nas agências do Luxemburgo ou no Dubai. Identifiquei nestas pessoas com somas avultadas em offshores os especuladores de que ouvia falar no Prós & Contras. Mas voltei a enganar-me. Nos media li antes a história de pessoas como o treinador Carlos Queiroz, que garantia ter assinado uns papéis sem saber o que lá estava escrito, comportamento que não me parece ser o de um especulador. Há umas semanas veio o Banif, e a decisão do governo de salvar os grandes depósitos, embora a lei da garantia dos depósitos só cubra os depósitos até cem mil euros. Foram cerca de 1,4 mil milhões de euros que saíram do bolso dos contribuintes para o destes depositantes. Quem tem mais de cem mil euros no Banif, depois de dois anos de notícias sobre o estado do banco, e sabendo que não estavam cobertos, só pode ser o tal especulador de que se fala nos comícios do PCP e do BE. Nem pensar. Afinal, eram sobretudo pobres emigrantes e gestores públicos a investir na tesouraria dos seus órgãos do governo regional. Mesmo a fechar o ano, veio a transferência das dívidas seniores do Novo Banco para o BES. Ficaram a perder o Pimco e a BlackRock, que gerem cerca de seis biliões de dólares, 25 vezes mais do que o PIB anual português. A quem melhor assentaria o chapéu de horrível capitalista? Parece que a eles não, porque nos jornais li que estes são os investidores habituais na nossa dívida pública, parceiros com quem contamos nas alturas difíceis. Mais, eles representam fundos de pensões que financiam há anos a nossa endividada economia, mas juram nunca mais confiar na palavra de um português. Os especuladores são unicórnios ou gambozinos: só existem nas histórias. A moral desta experiência não é que não existem vilões: A moral é que na cultura atual de bail-out, desde que se façam passar por coitadinhos, todos têm esperança de ser salvos das suas perdas financeiras. O contribuinte que pague. - »

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